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VIII Semana Zé Maria do Tomé promove debate sobre terra, água e produção agroecológica

20 de abril de 2018

A VIII Semana Zé Maria do Tomé, que teve início na última segunda-feira (16/04), contou com uma atividade da Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária Popular, agregada à Jornada de Lutas organizada pelo Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) todos os anos, no mês de abril.

O debate sobre terra, água e produção agroecológica, realizado na tarde de quarta-feira (18/04), no solo de luta e resistência do Acampamento Zé Maria do Tomé, na Chapada do Apodi; que, assim como a Semana, também leva o nome do camponês daquele território, assassinado em 2010, reuniu estudantes e professores universitários, pesquisadoras/es do Ceará, de outras regiões do Brasil e também de fora do país,  organizações populares, além de camponesas e camponeses do acampamento.

Tão recorrentes no cotidiano do povo que trabalha com a agricultura e que precisa reivindicar direitos básicos para poder viver dela, os temas do debate formam o tripé fundamental para garantir justiça, dignidade e soberania ao povo camponês. “Queremos discutir, com a agroecologia, um projeto de desenvolvimento para o campo, diferente do projeto que está aí: tão assassino, tão excludente, tão poluidor”, afirmou Ricardo Cassundé, do MST/Ceará, demarcando que a agroecologia tem lado e que, por sua essência, está do lado oposto ao projeto do agronegócio. Referindo-se ao Acampamento Zé Maria do Tomé, Cassundé refletiu sobre os desafios da prática agroecológica e do processo de transição em que se encontram, colocando a necessidade de orientação técnica e científica, e valorização dos saberes ancestrais aliados aos saberes contemporâneos. Isso não só para as famílias do acampamento, mas para todas as produtoras e produtores que persistem em uma agricultura que leve em conta o equilíbrio das relações – em diversos planos – entre as pessoas, e das relações entre as pessoas e a natureza. O trabalho é um desses planos. “No modelo do agronegócio, a terra nunca será compartilhada, ela sempre estará privatizada. Precisamos pensar numa condição em que o nosso trabalho seja livre”, do domínio do tempo e da terra, da subordinação de um patrão, complementou.

Maria de Jesus, liderança do MST/Ceará, costurou suas reflexões sobre soberania e em que aspectos ela deve se dar – alimentar, florestal, hídrico, educacional, cultural e econômico – entendendo de onde partem as limitações para alcançá-la: “Na lógica deles (capitalismo), não cabe nós”. Como agricultora e militante, compreende que os conflitos agrários não cessarão enquanto nossa sociedade persistir sob a lógica capitalista. “Nesse momento se acirra a questão agrária no Brasil. No ano passado, nós não conseguimos nenhuma família assentada e passamos por quatro massacres. Foram assassinados 64 companheiros lutando pela terra este ano”.

Conflito pela água

Anjerliana Souza, da Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte, instituição que compõe o M21 e que organiza a Semana Zé Maria do Tomé, inseriu no debate o contexto hídrico do território a partir de exposição sobre a organização da gestão pública da água, dos espaços de controle social e da condução política de recursos hídricos atrelada às pressões de setores econômicos.

cáritasTomando o Castanhão como o coração do abastecimento de água da região do Vale do Jaguaribe, do litoral leste e da Região Metropolitana de Fortaleza, fez as agricultoras e os agricultores presentes lembrarem da construção do açude em 2002 e de seus objetivos: controlar as cheias do Rio Jaguaribe, torná-lo perene e garantir o abastecimento da população. Na época, o governo anunciava que o Castanhão só alcançaria sua capacidade máxima em três meses, quando não precisou de menos de 18 dias para encher. Hoje, com 9,95%, Anjerliana questiona: “Como pode ter secado dessa forma, em tão pouco tempo, em relação ao volume que ele acumula?”. A resposta está na gestão da água.

Priorizando os sistemas agropecuários hidro-intensivos e o setor industrial, mesmo em tempos de escassez de chuvas, a carga do açude não comporta abastecimento para toda a população. “Nós temos um problema no gerenciamento dos recursos hídricos, que é disputado, que é de conflito”, disse Anjerliana, expondo as definições do Conselho de Recursos Hídricos do Ceará (CONERH) em momentos de crise sem consulta aos Comitês de Bacias. As decisões políticas da gestão pública geralmente tem sido em prol do abastecimento dos setores econômicos e da Região Metropolitana de Fortaleza, em detrimento do restante da população e de suas atividades econômicas, como a própria agricultura familiar. Ainda que pela Política Nacional de Recursos Hídricos a prioridade deva ser o abastecimento humano em tempos de escassez, “a política está revertendo isso na sua prática”, concluiu.

A VIII Semana Zé Maria do Tomé segue com as atividades até o dia 21 de abril, quando se realiza a Romaria da Chapada. Do local do assassinato de Zé Maria até a comunidade do Tomé, a Romaria reaviva a memória do camponês e dos mártires do povo.

Por Raquel Dantas
Rede de Comunicadores
Cáritas Brasileira Regional Ceará

Fotos: Eva Marques

 

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