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V Congresso Nacional

 

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Os congressos da Cáritas Brasileira são espaços nacionais ampliados para reflexão sobre a realidade sociopolítica e econômica, da Igreja e da própria Rede Cáritas e para, a partir da avaliação do Marco Referencial do quadriênio, definição das novas prioridades estratégicas da instituição para o próximo período. São também espaços de partilha e celebração da caminhada.

O V Congresso Nacional da Cáritas Brasileira (V CNCB) foi realizado de 9 a 13 de novembro de 2016 no Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, no município de Aparecida/SP, com o tema “Cáritas: pastoralidade e transformação social” e o lema “60 anos de solidariedade libertadora”.

Mas a preparação para o encontro nacional começou bem antes! O V Congresso foi vivenciado com profundidade nos encontros dos grupos, comunidades, dioceses e regionais, ao longo de todo o ano de 2016. Com a participação e contribuições de tantas pessoas, o encontro de novembro foi um momento significativo de reflexões e partilhas da rede, indicando os novos caminhos a seguir a partir das exigências da realidade atual.

Centrado na compreensão da “pastoralidade da Cáritas”, o congresso realizou uma reflexão profunda sobre esta dimensão da vida da Cáritas Brasileira, fazendo com que a celebração dos 60 anos fosse, de fato, uma retomada do que foi vivido. O encontro nacional teve várias etapas preparatórias – caravanas territoriais, caravana regional, pré-congressos inter-regionais e um seminário nacional – e foi realizado em sintonia com a celebração dos 300 anos de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil.

Curta a Revista do V CNCB. Acesse o Caderno_Metodológico_1 e o Caderno_Metodológico_2. Escute também o hino oficial dos 60 anos. Leia abaixo os textos, veja as fotos e assista os vídeos do V Congresso Nacional da Cáritas Brasileira, das atividades preparatórias ao congresso e da presença da imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida na caminhada da Rede Cáritas durante o ano de 2016: 

Palestras realizadas do V CNCB

Painel: Cáritas 60 anos de solidariedade 

 

 Painel: Análise de conjuntura eclesial

 

 Painel: Análise de conjuntura sócio econômica e cultural 

 

 

 Painel: Pastoralidade e transformação social

 

Cobertura do V CNCB

Depoimentos do V CNCB

 

 

Os congressos anteriores

Os congressos nacionais da Cáritas vêm sendo, ao longo dos anos, um espaço de celebração, avaliação e compromisso de toda a rede, juntando o que de melhor os/as protagonistas da solidariedade têm para oferecer como pastoral de uma Igreja em saída.

Por ser obra de seres humanos, a história é sempre marcada por luzes e trevas. Da já longa história da Cáritas Brasileira, houve momentos fortes em que, com processos participativos, a avaliação e a celebração da prática foram fontes para aprofundar a compreensão da missão da entidade e para definir formas de ação que garantiram a fidelidade a esta missão. É motivo de alegria dar-se conta que foram muitas as realizações e projetos em favor dos que mais sofrem, sempre a serviço de sua libertação das situações de injustiça e marginalização social e em prol da promoção de sua cidadania na construção de uma sociedade que se aproxime do projeto de Deus para seus filhos e filhas.

É para isso que é importante recordar e, ao mesmo tempo, reviver os congressos nacionais e outros eventos realizados anteriormente.

I Congresso Nacional

O I Congresso Nacional teve lugar em Fortaleza/CE, em setembro de 1999 (foto acima). A partir da temática motivadora “Cáritas – Construindo um Novo Milênio Solidário”, os cerca de 350 participantes vivenciaram o objetivo de “celebrar o Ano da Caridade, aprofundando a compreensão crítica da realidade, ampliando a participação dos agentes Cáritas, pastorais e movimentos nas reflexões da Cáritas Brasileira em vista da construção de novos caminhos para a prática”.

A riqueza deste congresso se expressou nesta formulação da missão da Cáritas: “Promover e animar o serviço da solidariedade ecumênica libertadora, participar da defesa da vida da organização popular e da construção de um projeto de sociedade a partir dos excluídos e excluídas, contribuindo para a conquista da cidadania plena para todas as pessoas, a caminho do Reino de Deus”.

Para colocar esta missão em prática, foram definidas as seguintes Linhas de Ação: Construção e conquista de relações democráticas e de políticas públicas; Atuação em áreas de emergência naturais e sociais; Convivência do Semiárido; Desenvolvimento da cultura da solidariedade; Valorização e promoção da Economia Popular e Solidária.

O II Congresso Nacional foi realizado em Belo Horizonte/MG, em setembro de 2003 (foto abaixo). O tema mobilizador foi: “A Cáritas e a Construção de um Novo Projeto de Sociedade Solidária”, e o lema: “Do local para o global, sem exclusão social”. Contou com presença de 113 entidades-membros e 492 participantes. Como fruto do longo processo de construção coletiva e do diálogo realizado no evento, a missão da Cáritas passou a ser formulada nesses termos: “a Cáritas Brasileira testemunha e anuncia o Evangelho de Jesus Cristo, defendendo a vida, promovendo e animando a solidariedade libertadora, participando da construção de uma sociedade com as pessoas em situação de exclusão social a caminho do Reino de Deus”.

Foram renovadas também as Linhas de Ação: Defesa de direitos; Mobilização e conquistas de relações democráticas; Desenvolvimento solidário e sustentável; Sustentabilidade, fortalecimento e organização da Cáritas; Semiárido; Formação; Programa Infância, Adolescência e Juventude (PIAJ).

II Congresso Nacional

O III Congresso Nacional, realizado em Aracajú/SE em novembro de 2006, contou com 480 participantes e assumiu o tema “Cáritas Brasileira – A serviço da Vida”. Foi ponto de chegada de um rico processo de retomada da caminhada e da celebração dos 50 anos da Cáritas Brasileira e expressou compromisso de fidelidade à missão da entidade por meio da solidariedade aos povos ameaçados do Rio São Francisco e de todas as comunidades do Semiárido brasileiro.

Entre o terceiro e o quarto congressos, houve ainda a XVI Assembleia Nacional, realizada em Castanhal/PA em outubro de 2007 e que teve como tema: “Missão e Desafios da Cáritas na Amazônia”. Os 233 participantes reelaboraram a formulação da missão, nos seguintes termos: “Testemunhar e anunciar o evangelho de Jesus Cristo, defendendo e promovendo a vida e participando da construção solidária de uma sociedade justa, igualitária e plural, junto com as pessoas em situação de exclusão social”.

Também houve na XIV Assembleia Nacional uma explicitação mais detalhada dos princípios orientadores e das diretrizes da entidade, além da definição das seguintes Prioridades Estratégicas: Promoção e fortalecimento de iniciativas locais e territoriais de desenvolvimento solidário e sustentável; Defesa e promoção de direitos e controle social de políticas públicas; Fortalecimento da articulação da Cáritas com as Pastorais Sociais, com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e com o conjunto da Igreja. Foi explicitado ainda que a grande prioridade a ser assumida era a Região da Amazônia.

O IV Congresso Nacional foi realizado em Passo Fundo/RS, em novembro de 2011. A temática mobilizadora foi: “Desenvolvimento solidário sustentável”, e o lema: “Sementes de um projeto popular”. Os 428 participantes confirmaram a formulação da missão e assumiram os seguintes Princípios Orientadores: Defesa e promoção da vida – sociobiodiversidade; Mística e espiritualidade ecumênica e libertadora; Cultura de solidariedade; Relações igualitárias de gênero, etnia e geração; Protagonismo dos excluídos e excluídas; Projeto alternativo de sociedade solidária e sustentável.

As prioridades foram redefinidas: I – Promoção e fortalecimento de iniciativas locais e territoriais de desenvolvimento solidário e sustentável; II – Defesa e promoção de direitos, mobilizações e controle social das políticas públicas; III – Organização e fortalecimento da Rede Cáritas.

A avaliação do IV Congresso Nacional explicitou a importância da realização destes encontros nos seguintes termos: “Os congressos da Cáritas têm sido espaços nacionais ampliados. Possibilitam reflexões críticas sobre a realidade sócio-político-econômica, sobre a Igreja e a própria Rede Cáritas. E, a partir da avaliação do marco estratégico do quadriênio, definem novas prioridades estratégicas para a instituição para o seguinte período. Têm sido, também, espaços de partilha e celebração da caminhada”. A partir do IV Congresso Nacional, foi definido que os encontros seguintes seriam realizados a cada cinco anos.

Texto de referência

 Pastoralidade e Transformação Social nos Sessenta Anos da Cáritas Brasileira

“A minha alma engrandece o Senhor
E o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1, 46-47)

 A Cáritas Brasileira faz 60 anos e nunca foi tão presente, tão necessária e tão desafiada! Por isso tem como missão: “Testemunhar e anunciar o Evangelho de Jesus Cristo, defendendo e promovendo a vida e participando da construção solidária de uma sociedade justa, igualitária e plural, junto com as pessoas em situação de exclusão social.”

Presente, porque vem aperfeiçoando os modos de resposta da Igreja aos desafios do nosso tempo, criando metodologias de presença amorosa nas comunidades que vivem em meio ao sofrimento. A presença da Cáritas Brasileira se dá nos espaços diretos de ação solidária, certamente, mas ela também se faz sentir nas redes e articulações de políticas públicas, nas respostas mais amplas às emergências, na formação de comunidades e lideranças com sensibilidade e capacidade de solidariedade e na própria organização da solidariedade.

Necessária, porque as desigualdades sociais que estruturam nosso país são antigas e persistentes, exigindo um esforço continuado, sistemático e constante que não se esgota em iniciativas superficiais e oportunistas. Esta capacidade continuada, aliada a uma presença enraizada de modo horizontal e participativo, faz da Cáritas Brasileira uma rede de solidariedade, num momento em que os trâmites políticos e as políticas de Estado estão crivados de disputas e necessidade de aperfeiçoamento. A prática da Cáritas não substitui os equipamentos de assistência do Estado, mas potencializa e objetiva nas comunidades a capacidade de acesso, informação e de autonomia. Mesmo que estes objetivos não sejam imediatamente alcançados, a insistência e coerência das práticas da Cáritas junto com as comunidades em que age garantem a legitimidade de sua interlocução em cenários locais, regionais e nacionais.

Desafiada, porque o processo sociopolítico e econômico da última década favoreceu parcialmente o surgimento de mecanismos de atendimento a demandas das populações mais vulneráveis sem, contudo, desarmar as estruturas da desigualdade. Essas contradições criaram oportunidades, mas, ao mesmo tempo, explicitaram os limites da democracia brasileira, que exige um sistemático exercício de crítica e autocrítica. Esta insistência da intervenção descentralizada da Cáritas nos pontos críticos das relações de desigualdade gera protagonismo e inovação de respostas, mas também demanda maior radicalidade em sua missão, maior capacidade de gerenciamento de recursos, mais criatividade metodológica, mais cuidado teórico e interpretativo das relações de poder em questão.

Os desafios sempre estiveram presentes na história da organização, mas agora, na celebração dos seus 60 anos, eles se tornam urgentes e inadiáveis. A presença social da Cáritas Brasileira precisa continuar sendo testemunho político de afirmação do Estado para todas as pessoas, em especial num momento em que setores religiosos, políticos e econômicos se aproveitam do debate e da intervenção social para afirmar interesses corporativos, mesquinhos e oportunistas. A metodologia de planejamento e de ação precisa continuar apontando para a radicalização da democracia e o aperfeiçoamento das formas de participação e controle social.

Esta presença, necessidade e desafios serão celebrados no V Congresso Nacional da Cáritas Brasileira, em 2016.

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Viver com alegria a solidariedade libertadora

“A sua misericórdia se estende de geração em geração” (Lc 1,50)

Entre os desafios que se colocam na atualidade, tendo presente a rica caminhada de 60 anos da Cáritas Brasileira, está aquele de reconhecer, entender, atualizar e celebrar a missão da organização, que é de “testemunhar a anunciar o Evangelho de Jesus Cristo”, sendo parte da busca de um projeto popular de sociedade democrática. Neste sentido, a Cáritas não é uma ONG, mas também não é um movimento social nem político-partidário, não é uma ação entre amigos, nem uma campanha eventual liderada por celebridades ou políticos. Também não quer ser uma ação social da Igreja deslocada dos debates mais amplos sobre os direitos e a igualdade na sociedade brasileira, nem um serviço social desconectado da espiritualidade e da vivência da fé.

A Cáritas entende a busca de um projeto popular de sociedade democrática como parte da missão evangelizadora da Igreja e se coloca a serviço mobilizando comunidades, pessoas e recursos, tendo que cuidar do amadurecimento necessário dos mecanismos de participação social sem se perder no corporativismo assistencialista.

Esta busca de reafirmação da missão é o que chamamos “pastoralidade”: o caráter pastoral do trabalho articulado com um modo de ser Igreja a serviço do Reino de Deus. Jesus entra em comunhão com o seu rebanho, o seu povo, e se doa voluntariamente e com amor libertador pela salvação de todas as pessoas. Essa comunhão e autodoação têm sua fonte no amor entre o Pai e o Filho. Comunhão e autodoação é o modo de ser de Deus. Por meio de Jesus, passa a ser o modo de ser dos cristãos.

Como agentes da Cáritas, todos nós fortalecemos nossa identidade de povo escolhido e reunido no amor de Cristo, o Bom Pastor. Este serviço é fruto da alegria do Evangelho, que nos humaniza e nos faz solidários com toda a criação e toda a humanidade. Acolhidos pelo amor misericordioso de Deus no mundo e na história, somos revestidos de amor:

Ninguém nos pode tirar a dignidade que este amor infinito e inabalável nos confere. Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda, e sempre nos pode restituir a alegria. Não fujamos da ressurreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder. Que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!

A vida, no Evangelho de Jesus, é movida pelo amor que se expressa na alegria de ir ao encontro do mundo e seus seres, da humanidade e suas gentes, e de afirmar a dignidade da vida. Somos povo de ressurreição, e cremos que o amor solidário pode vencer a morte e restaurar aquilo que o pecado e a morte destroem. Por isso, nos organizamos no trabalho pastoral e no serviço da solidariedade libertadora: como expressão da alegria do nosso encontro com Deus no mundo, na história e na humanidade.

Somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da autorreferencialidade. Chegamos a ser plenamente humanos quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui está a fonte da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?

A alegria do Evangelho que nos move aciona também em nós o pensamento crítico e a criatividade como presença atenta e profética. A alegria não é um analgésico que retira de nós a capacidade de sentir a dor e a indignação, mas é alimento que recebemos quando vamos ao encontro daqueles e daquelas que são os primeiros/primeiras no Reino de Deus: os pobres.

Na Exortação à Alegria do Evangelho (EvangeliiGaudium), o Papa Francisco nos aponta caminhos para sair à vida missionária, à vida social:

Antecipar-se – Tomar a iniciativa, sair em busca, sair a dar testemunho nas periferias.

Envolver-se – Assumir, com toda a sua vida, ser povo e estar com o povo. Tocando a carne sofrida de Cristo nas pessoas.

Acompanhar – Ser Igreja que caminha com seu povo em todos os processos.

Frutificar – A comunidade evangelizadora mantém-se atenta aos frutos e encontra o modo para fazer com que a Palavra se encarne numa situação concreta e dê frutos de vida nova.

Festejar – Celebrar, festejar cada vitória, cada passo conquistado na evangelização.

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 Viver a pastoralidade eclesial

“O bom pastor dá a vida por suas ovelhas”  (Jo 10,11)

A expressão “pastoral” vem do imaginário bíblico de Jesus, o Bom Pastor, que se diferencia daquele que se aproxima das ovelhas para explorar, para roubar e para matar. Jesus, o Bom Pastor, é aquele que dá a vida por suas ovelhas. Deixa 99 ovelhas no aprisco para ir ao encontro daquela uma que se perdeu. Evitando tentações de reduzir o cristianismo a práticas de louvação ou de justificativa para a busca de enriquecimento individual, afirmar a pastoralidade na Cáritas hoje significa viver uma espiritualidade enraizada nas práticas e no evangelho de Jesus Cristo.

A Igreja se organiza em ministérios que respondem tanto às diferentes necessidades da vida eclesial quanto às interlocuções com a sociedade e seus desafios. A Igreja latino-americana entendeu estes ministérios como “ação pastoral”, isto é: o esforço organizativo que viabiliza a vida em comunidades de fé, e a organização de respostas por dentro da eclesialidade para a intervenção na realidade mais ampla. Assim, a catequese e a liturgia – entre outras – surgem da mesma reflexão que projeta as pastorais sociais. A vivência eclesial da fé unifica os ministérios e alimenta o diálogo necessário entre as muitas pastorais, garantindo a organicidade e comunhão da Igreja.

As pastorais sociais, como respostas específicas a desafios colocados pela realidade, a apelos e gritos que vêm dos empobrecidos e excluídos, realizam um intenso processo de escuta e de interpretação, fazendo interagir de modo orgânico as motivações do Evangelho e as motivações sociais, visibilizando a presença da Igreja em meio às urgências de nosso tempo. Alguns desafios que a Cáritas Brasileira já vem assumindo são processos que precisam de empenho continuado e atualização: convivência com os biomas (caatinga/semiárido, amazônia); ações locais de desenvolvimento sustentável e territorial (economia solidária, fundos rotativos); gestão de riscos e emergências; direitos humanos; juventudes; políticas públicas.

Neste sentido, a Cáritas é presença pastoral da Igreja: sua missão é a missão da Igreja traduzida e vivida no serviço e na caridade. Toda Igreja precisa envolver-se e expressar-se em amor; e, para que isso aconteça, é também missão pastoral da Cáritas oferecer à Igreja a análise crítica, a metodologia de ação e a prática que concretizam esse amor solidário. Da mesma forma que não cabe à Cáritas substituir o Estado e suas instituições, também não deve aceitar substituir as pessoas, comunidades e agentes pastorais que constituem a Igreja. Jesus não amou radicalmente os empobrecidos de seu tempo no lugar dos discípulos e discípulas, e sim como vivência de sua missão; e, como parte dela, passou a eles/as o mandamento: amai-vos uns aos outros como eu amei a vocês, e ninguém ama mais do que quem dá sua vida pelas pessoas que ama… Da mesma forma, quem participa da pastoralidade de Jesus, como a Cáritas, precisa amar radicalmente e convocar todos os seguidores/as de Jesus para que entrem nesse caminho. A práxis do amor é vivência de fé e eclesial; daí tira sua força, sua legitimidade e seu horizonte de esperança.

“Quem não ama a seu irmão e irmã, a quem vê,
não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4,20)

A Cáritas é Igreja em saída, uma das expressões da Igreja que se faz povo no meio do povo. Esta saída – pastoral, evangelizadora e missionária – cria espaços ecumênicos e inter-religiosos de encontro, partilha de dons e serviço na construção de respostas aos sofrimentos das pessoas e comunidades. O ecumenismo na base é vital para a unidade da Igreja, e a vivência amorosa de outros modos de fé e cultura enriquecem o processo.

De modo concreto, na luta do povo negro e indígena, por exemplo, a Cáritas parte do reconhecimento da dívida social em relação a eles e colabora na afirmação da identidade, da valorização da história e de suas raízes, trabalhando pelo empoderamento das comunidades negras e indígenas enquanto agentes ativos do processo de democratização étnica e racial e de um projeto popular para o Brasil. As matrizes africanas e indígenas precisam ser evidenciadas, pois elas nos ajudam a assumir uma visão da relação ser humano/natureza/planeta Terra que coloca em questão a visão utilitarista da cultura e da civilização ocidental capitalista e nos ajuda a qualificar o projeto popular de país.

Nosso modelo de pastoralidade é Jesus Cristo: vamos ao encontro dos/das últimos/as, daqueles/as que foram deixados, que foram expulsos da dignidade e dos direitos… e aí encontramos a Deus.

Quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, «àqueles que não têm com que te retribuir» (Lc 14, 14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, «os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho»…

Nas estruturas de um mundo desigual, a solidariedade libertadora está entre os pobres que suportam a violência e a exclusão: é ali onde a vida está ameaçada que a humanidade conhece sua profunda capacidade de resistência e de acolhimento. Longe de idealizar o pobre e a pobreza, reconhecemos a opção preferencial de Deus de fazer surgir ressurreição nesse lugar e a partir desse lugar de negação. Aqueles e aquelas que o pecado social desprezou, que o sistema econômico condenou… são eles e elas que podem gerar a extrema partilha capaz de fazer surgir o mundo novo.

Por isso, o Antigo Testamento e os Evangelhos insistem: os pobres sempre tereis convosco! (Deuteronômio 15,11; Levítico 25,35; Lucas 11,41). Não como fatalidade ou destino! Não como normatização e naturalização da exploração e da desigualdade. A experiência humana de vida em sociedade é exercício de poder e fruto de relações sociais que podem estruturar exclusão e desigualdade. Ter os pobres sempre conosco significa acionar sempre de novo os mecanismos de jubileu, os mecanismos de reparação e salvação. Sempre e de novo avaliar a vida em sociedade, perguntando e se posicionando junto aos pobres: este o lugar privilegiado para conhecer e avaliar a sociedade e também para conhecer formas de resistência, solidariedade e superação.

O trabalho pastoral é esta dinâmica de perguntar de novo e de novo pelos que ficaram para trás, aprendendo a ler a realidade, fazendo a crítica das relações de poder e se posicionando junto aos pobres, lugar de salvação. São lugares plurais de classe social, etnia, gênero, geração, capacidade.

Antes de nós e diante de nós temos o testemunho de homens e mulheres que viveram a graça da plena alegria e do extremo serviço como exemplo e modelo de pastoralidade, radicalidade da fé e amor pelos pobres… Podemos ir lembrando os que foram testemunhas fiéis perto de nós, e também as pessoas que, por bondade de Deus, se destacaram, como por exemplo: Beato Oscar Romero da América Latina, Margarida Maria Alves, Santo Dias da Silva, Berta Cáseres (assassinada há poucos dias em Honduras por sua atuação em defesa dos direitos dos povos indígenas e camponeses), Marçal (do povo Guarani)…

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Celebrar e comprometer-se com a solidariedade presente na vida do povo

”Mulher, grande é tua fé! Como queres, te seja feito!”  (Mt 15,28)

Em muitas práticas, Jesus vai interagir com os pobres, doentes, estrangeiros, excluídos de seu tempo, e vai identificar situações de negação de vida. A ação de Jesus é de valorizar o que os pobres são e têm. Valorizar o que já está lá: a fé! Mesmo no turbilhão das situações humanas de limite, dor e vergonha… Jesus reconhece a fé, a vida, a cura, o amor que já estão lá, e a partir dessa pequena semente… cria as condições para o empoderamento, a cura, a participação, a convivência. O próprio Reino, o projeto de Deus para e com seus filhos e filhas, já está lá, “no meio de vós”:

Bem-aventurados os pobres porque deles é o Reino dos céus!

Este é nosso modelo de pastoralidade: em vez de levar verdades, soluções prontas ou modelos prontos, quando vamos ao encontro, abrimos diálogos de Boa Nova e nos encontramos com a presença amorosa de Deus no meio dos pobres. O amor já está lá esperando por nós que queremos socializar e encontrar juntos/juntas caminhos e processos de partilha, superação e solidariedade libertadora. Tudo isso já sabemos! Tudo isso move o trabalho das pastorais sociais e da Cáritas. Mas é sempre de novo oportuno reafirmar nossas motivações e reafirmar nossa metodologia: os pobres sempre tereis convosco!

A Cáritas quer ser este movimento de ir ao encontro das pessoas e comunidades que conhecem o pior da vida em sociedade, aqueles e aquelas que são negados e a quem se nega o acesso às condições básicas de vida. Ali, entre elas e eles, está a fé, o amor e a solidariedade. Nosso trabalho pastoral quer ser parte, quer potencializar e compartilhar estratégias salvadoras, mecanismos de acolhimento, e fazer de novo acontecer o milagre da multiplicação: ninguém ficará com fome.

Esta libertação da solidariedade é fundamental no trabalho pastoral: não está em nós a solução, a salvação e a fé. Nos movemos e nos colocamos junto aos pobres, e este é o lugar de toda crítica social, de toda análise de estratégias e, principalmente, de toda espiritualidade da solidariedade libertadora.

Reunimos possibilidades, recursos e metodologias e peneiramos tudo isso a partir da educação popular e do protagonismo dos pobres: e a Boa Nova se faz! A solidariedade libertada de todo assistencialismo, populismo e sentimentalismo superficial é Boa Nova:

Graças te dou, ó Pai, Senhor dos céus e da terra, pois escondeste estas coisas dos sábios e cultos, e as revelaste aos pequeninos (Mateus 11,25).

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Assumir a libertação das pessoas e da Mãe Terra

“Toda criação espera ansiosamente a revelação dos filhos e filhas de Deus” (Rom 8,19)

O V Congresso Nacional da Cáritas Brasileira vai acontecer em novembro de 2016: um ano depois do desastre de Mariana/MG, quando as barragens de Fundão e Santarém, da Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton, se romperam liberando uma onda de lama que teria chegado a mais de 2,5 metros de altura, matando ao menos 18 pessoas e deixando um rastro de destruição e morte de cidades, vilas, plantações, animais, rios e vegetação. O Rio Doce foi tomado pela lama tóxica que chegou até o mar, deixando muitas cidades sem água, sem vida. O que se sabe é que o desastre se anunciava pela irresponsabilidade das empresas, da legislação ambiental sempre favorável aos interesses do capital e pela falta de fiscalização eficiente. Por mais que, como fruto das lutas dos afetados/as e da solidariedade política de muitas entidades, as famílias estejam recebendo algum tipo de indenização, ninguém sabe como e quando a sociobiodiversidade do Vale do Rio Doce será restabelecida. As comunidades continuam a conviver com a destruição, a lama, a sujeira e a mentira.

Um ano depois, esta lama de morte ainda deve doer em nós! Também por ser lembrança de tantos outros crimes socioambientais que geraram dor, sofrimento e morte a comunidades e à Terra. Entre eles, vale lembrar especialmente as enchentes e a falta de água que afetaram o Sudeste brasileiro. Já se sabia que a desigualdade social leva muitas famílias a viverem precariamente em áreas e condições de risco em nossas cidades: beiras de córregos e rios, encostas de morros, barracos de papelão, beiras de ruas e estradas. Já se sabia que o descuido e a contaminação de córregos e rios, bem como a falta de coleta e tratamento adequado dos esgotos e lixos, eram anúncio de desastres ambientais e sanitários. Já se sabia também que o desmatamento continuado e quase total da Mata Atlântica provocaria problemas climáticos, particularmente em relação à disponibilidade de água. Mas poucos imaginavam que milhões e milhões de pessoas se sentiriam ameaçados por falta total de água, e em área urbana, sem alternativas.

Recebemos, nos últimos anos, avisos insistentes da Terra de que agredir os ambientes de vida dos biomas provoca respostas ameaçadoras a todas as formas de vida. Que formas de vida não sofreram com as secas e fortes enchentes que ocorreram na região Sul? E no Semiárido? E na Amazônia? E no Cerrado, no qual é cada vez mais preocupante o encurtamento do tempo das chuvas – em 2015/16, começou praticamente em novembro e encerrou no final de março, deixando no ar a previsão de problemas de abastecimento em toda a região.

Recebemos igualmente avisos de que precisamos conhecer e cuidar mais das relações entre os diferentes biomas. Ao faltar água no Sudeste, junto com a denúncia de todos os descuidos e das consequências da privatização e comercialização deste bem indispensável à vida, cresceu a consciência de que a falta de chuvas na região tem tudo a ver com o avanço do desequilíbrio causado pelo desmatamento crescente da floresta e pelas agressões ao ambiente no bioma Amazônia por parte das iniciativas empresarias. Diminui por lá o “rio aéreo” gerado pela umidade jogada na atmosfera na relação das águas, floresta e calor; com isso, diminui a umidade transportada para o Sudeste pelos ventos que batem na Cordilheira do Andes. Por outro lado, a diminuição das chuvas e a compactação dos solos pelos usos do agronegócio fazem com que o Cerrado não consiga mais reabastecer os aquíferos; e com menos águas neles, menos água no São Francisco, menos água para a Amazônia…

A beleza e maravilha das relações entre os biomas do nosso país e de toda a Terra, bem como as notícias de desastres e ameaças de agravamento do aquecimento global e das mudanças climáticas, foram, em 2015, motivação para duas inciativas significativas: que o Papa Francisco publicasse a encíclica Laudato Si’, como convocação da humanidade a mudar profundamente o sistema sócio-político-econômico dominante e o estilo consumista de vida para enfrentar os sofrimentos dos pobres e da Terra provocados por eles; e que os 195 países reunidos pela ONU na COP 21 aprovassem o Acordo de Paris, anunciando a intenção de enfrentar as causas humanas das mudanças climáticas.

As comunidades acompanhadas pela Cáritas já vêm apontando as questões ambientais e territoriais como eixo importante das lutas e das construções de estratégias. As pessoas e comunidades vivem a desigualdade e a violência em cenários agredidos e alienados. As mesmas forças que golpeiam a dignidade humana golpeiam também a natureza e seus seres. As crises climática, hídrica, de alimento, de saúde e saneamento são parte da mesma estrutura de morte que mercantiliza tudo e todos.

A Cáritas já sabe, mas tem diante de si o desafio de ampliar o que se entende como solidariedade libertadora, articulando duas grandes dimensões da vida que reclamam crítica e ação: as lutas e saberes que surgem das bases, da vida dos pobres, e as lutas e saberes da vida na Terra e com a Terra. As lutas pela justiça, pelos direitos, pela economia solidária, pela agroecologia e por tudo que vai construindo o projeto popular de Brasil precisam estar unidas com as lutas em defesa de tudo que constitui os ambientes que favorecem a vida nos diferentes biomas. Não se avança na qualidade de vida sem a libertação das pessoas e sem a libertação da Terra. É isso que nos revela o apóstolo Paulo quando diz que a Terra aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos e filhas de Deus para libertar-se da opressão que a leva a gritar em dores de parto. (Cfr. Rom 8)

A afirmação da autonomia, a autogestão e a radicalização da democracia no encaminhamento de projetos sociais e na construção do novo mundo possível precisa andar junto com uma reflexão e ação ecológica também radical e de base. Autonomia, comunidade e território precisam ser o horizonte político e de espiritualidade das ações, mesmo quando emergenciais.

A autonomia desde as bases é fundamental e visa interromper todo mecanismo de ação que atrela as comunidades ao Estado e que apresenta as políticas públicas como elos de dependência das comunidades às instâncias estatais. O desastre de Mariana e tantos outros nos mostram quanto as comunidades não têm acesso à legislação, nem controle dos usos econômicos de seus territórios de vida. Estão à mercê das empresas que instrumentalizam o Estado para seus interesses. O desafio deste tempo é o de não só discutir o Estado que temos e o Estado que queremos, mas também e principalmente reforçar a autonomia das comunidades, os espaços de democracia direta que interrompem os projetos de monocultura política, econômica e social, estruturando o poder desde baixo, desde as comunidades.

Já a partir do seu I Congresso Nacional, explicitando diferentes dimensões, a Cáritas Brasileira priorizou o debate e a participação no processo de construção de um “Projeto popular para o Brasil”, incluindo a definição do tipo de desenvolvimento que queremos. Este V Congresso precisa retomar e atualizar estas questões à luz da dramática situação política do país, da renovada violência da luta de classes entre nós e dos desafios que vêm das agressões ao ambiente vital: Qual a nossa contribuição em relação à metodologia de ação? Qual a nossa relação com o Estado? Como trabalhar com políticas públicas, de forma a gerar a autonomia das comunidades e a convivência com o ambiente vital de cada território e bioma?

Esta autonomia é vivida no território, tanto na cidade quanto no campo. É o sentir-pensar as trocas materiais e simbólicas com o mundo e governar-cuidando em comunidade. O grande desafio das reformas urbana e agrária se relaciona com os temas da radicalização da democracia e da autonomia na gestão da vida das comunidades nos seus territórios. Os pequenos-grandes projetos apoiados pela Cáritas precisam estender ainda mais este horizonte e ser parte do novo que vem.

Estamos num difícil momento da vida do país! A última década mexeu um pouco no eixo do poder político: avançou em algumas mudanças sociais, mas manteve uma estratégia de conciliação (com o grande capital e com as oligarquias políticas) que se esgotou. Isso está levando a uma ameaça de derrota. Há várias maneiras de explicar este esgotamento: os limites do reformismo nos países de capitalismo dependente; os limites do neodesenvolvimentismo num só país; os limites da manutenção do país como fornecedor mundial de commodities; os limites de fazer reformas sem mudar as estruturas econômico-sociais fundamentais; os limites de melhorar a vida do povo sem fazer reformas estruturais; limites no estatuto jurídico e político do Estado que explicam as ameaças e os retrocessos nas conquistas de direitos…

A partir das aprendizagens, avanços e derrotas dos últimos anos, precisamos continuar animando as comunidades, retomando o trabalho de base da educação popular e política, evitar e combater o fatalismo e a passividade e insistir, com nossos parceiros/as e redes, na busca de um projeto popular para o Brasil que precisa inovar e radicalizar nos modos de participação política, tomada de decisões, acompanhamento de processos e execução de políticas. A radicalização da democracia é tarefa e mística alimentada pela ressurgência dos modos utópicos de vida dos povos originários. O horizonte e a utopia que nos atraem e nos provocam a multiplicar práticas concretizadoras da civilização do Bem Viver, acolhida por nós dos povos que são sinais históricos da ressurreição por terem sobrevivido a um decreto de extermínio de cinco séculos.

Inspirando-nos em Maria, Aparecida

Estando em Aparecida no âmbito das comemorações de 300 anos da Aparição, retomamos um imaginário da fé popular que surge nas águas barrentas do Rio Paraíba do Sul, pelas mãos de pescadores pobres: uma Maria Negra.

Entre a lama do Rio e a devoção popular, a Senhora Negra foi reunindo a fé do povo e suas aspirações. Desde baixo, na vida de trabalhadores, no meio da natureza… tudo isso é artigo de fé! Teologia primeira! Também as formas de poder que vão se organizar em torno da religião do povo, e as formas institucionais de controle da Senhora – mulher e negra –, vestida pelo Império, elevada ao posto de Padroeira… deixando o povo longe, na devoção sem protagonismo.

As manifestações da piedade popular católica que têm a Virgem Maria como referência precisam ser valorizadas e, onde for necessário, aperfeiçoadas a partir da boa nova de Jesus Cristo. Tais práticas têm grande significado para a preservação e a transmissão da fé e para a iniciação à vida cristã, bem como para a promoção da cultura. “As expressões da piedade popular têm muito que nos ensinar e, para quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização” (DGAE 88).

Este momento deve nos ajudar a pensar os desafios das práticas populares. Em Aparecida, a Cáritas tem a oportunidade de reafirmar seu compromisso com o povo negro, indígena e marginalizado, e em especial com os jovens e as mulheres negras e suas comunidades sofridas e lutadoras.

Nas águas do Paraíba, na lama da vida do povo, foi encontrada a imagem de Maria! Esta é a expressão de fé do povo que nos acompanha nestes 60 anos. O desafio de invocar a Senhora Negra na defesa das Mães de Maio e de todas as mães dos mártires das lutas por libertação, da juventude negra da periferia, dos quilombolas, e tantos outros desafios que vêm das águas barrentas da vida do povo!

Por Nancy Cardoso Pereira e Ivo Poletto

Caminho metodológico e místico

O caminho metodológico e místico do V Congresso Nacional da Cáritas Brasileira estará atento aos sinais presentes no contexto social, na Igreja e na própria Rede Cáritas. Para aprofundar as reflexões e construir o novo Marco Referencial da rede, será aplicado o método Ver-Julgar-Agir-Celebrar, que surge nas práticas das pastorais sociais e das Comunidades Eclesiais de Base como uma ferramenta de ligação entre a prática e a teoria e com um sentido de promover um senso crítico sobre a realidade em que atuamos.

Ver o que somos e como atuamos, com a iluminação do texto de referência, que nos provocará a analisar a identidade da Cáritas, no sentido da pastoralidade, e os desafios atuais para a missão e a ação da rede Cáritas, no sentido da transformação social. Ver a consistência e o alcance das nossas práticas, a partir do balanço do Quadriênio 2012-2015 da rede Cáritas, para identificar avanços e limites de nossa ação frente às prioridades e para compreender a nossa presença nos espaços de articulação e de mobilização social em torno de direitos.

Julgar o que condiciona o contexto e a nossa prática, à luz da leitura da realidade social e do Ensino Social da Igreja. Essa reflexão buscará o aprofundamento das temáticas com as quais a Rede Cáritas trabalha, em diálogo com os sujeitos da ação (grupos acompanhados, comunidades, agentes Cáritas e parceiros). O objetivo desse momento é refletir sobre as práticas, denunciar as situações de violação de direitos e propor alternativas.

Agir em sintonia com a nossa identidade e com o olhar sobre a realidade. A partir das pistas pastorais, iremos sistematizar as análises e as proposições surgidas no Julgar com o objetivo de organizar e orientar a ação da Rede Cáritas para o próximo quinquênio.

Celebrar a caminhada e a disposição de seguir adiante. O V Congresso Nacional acolherá o acúmulo das reflexões sobre as temáticas e sobre as alternativas. Dessa forma, terá condições de confirmar a identidade da Cáritas Brasileira e atualizar o Marco Referencial para o período 2017-2021 (missão, diretriz geral, prioridades institucionais e objetivos da ação Cáritas no Brasil), em sintonia com os olhares dos sujeitos da ação e dos parceiros.

Embora todos os momentos do método estejam articulados durante toda a preparação e a realização do V Congresso Nacional, em cada etapa será reforçado algum ou alguns destes componentes, conforme o quadro a seguir:

ETAPA

MOMENTO

Construção do texto de referência e do caminho metodológico

VER

Realização das caravanas temáticas nos territórios e nos regionais

VER, JULGAR E AGIR

Realização dos pré-congressos inter-regionais e do seminário/caravana nacional

JULGAR E AGIR

Realização do V Congresso Nacional da Cáritas Brasileira

AGIR E CELEBRAR

  

A realização do V Congresso Nacional assumirá as seguintes inspirações pastorais:

• Jubileu dos 60 anos da Cáritas Brasileira;
• Jubileu dos 300 anos de Aparecida – em 2017;
• Jubileu extraordinário da Misericórdia – de 08/12/2015 a 20/11/2016;
• Exortação apostólica Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium), sobre o anúncio do evangelho no mundo atual;
• Carta encíclica Louvado Seja (Laudato Si’), sobre o cuidado da casa comum;
• Lugar bíblico da Galileia enquanto lugar da festa e missão, continuando o caminho bíblico realizado até a XX Assembleia Nacional da Cáritas Brasileira. Nesta perspectiva, é necessário dialogar com o momento atual dos conflitos entre povos na região da Galileia e a militarização do território.

Os sinais sensíveis:

•  A imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em peregrinação pelos regionais da Cáritas Brasileira;
• Nas caravanas temáticas, estandartes de mártires e santos/as da caminhada;
• No V Congresso Nacional, estandarte de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina.

A iluminação bíblica:

• Oração do Jubileu dos 60 anos da Cáritas Brasileira;
• Cântico de Maria (Lc 1, 39-56), o Magnificat, que possui toda dimensão da pastoralidade, trazendo a figura feminina sobre a resistência dos pobres – o rosto materno de Deus:

“Naqueles dias, Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio. Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas’!

E Maria disse: ‘Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre’. Maria ficou com Isabel cerca de três meses. Depois, voltou para casa”.

 

Caminho místico

Iluminados pelo Cântico do Magnificat, queremos celebrar os 60 anos da Cáritas reconhecendo a organização dos empobrecidos e empobrecidas nos grupos, movimentos, comunidades e tantos coletivos que lutam por transformação social.

O chão sagrado de Aparecida, em São Paulo, nos convida a recordar o mistério das águas. O Papa Francisco, recordando a aparição da imagem de Nossa Senhora Aparecida, diz:

“Os pescadores não desprezam o mistério encontrado no rio, embora seja um mistério que aparece incompleto. Não jogam fora os pedaços do mistério. Esperam a plenitude. [...] Há aqui algo de sabedoria que devemos aprender. Há pedaços de um mistério, como partes de um mosaico, que vamos encontrando. [...] Depois os pescadores trazem para casa o mistério. O povo simples tem sempre espaço para abrigar o mistério.”

A caminhada da Cáritas Brasileira sempre nos colocou em diálogo de aprendizado com as pessoas empobrecidas. Com elas temos aprendido e resignificado a prática da solidariedade libertadora. O convite do Papa Francisco é para que a Igreja aprenda com o mistério de Aparecida. A peregrinação da Imagem de Nossa Senhora Aparecida, os processos preparatórios e a realização do V Congresso Nacional são um convite para que toda a Rede Cáritas também aprenda com Aparecida, com os pobres e com a solidariedade.

Vídeos Guia Metodológico 1

 

 

 

Imagem peregrina

 

Caravanas temáticas

Parabéns Cáritas

 

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