Diminuir tamanho da fonteAumentar tamanho da fonte

Ser mulher – um caminho de vida

07 de março de 2016

Sou filha caçula de uma família de seis irmãos. Três mulheres e três homens criados por um trabalhador, sertanejo, viúvo, que deixou o seu querido semiárido para tentar uma vida com dignidade na capital de São Salvador. Religioso como todo nordestino, um autodidata, apaixonado pele história do Brasil e pela leitura, acreditava que só o conhecimento seria capaz de garantir aos seus filhos e filhas uma vida cidadã. Era um homem criado numa cultura machista, sem nenhuma discussão sobre relação de gênero, mas cuja vida e o sonho de libertação lhe proporcionaram assumir práticas que nos conduziu para horizontes de ruptura.

Ao longo do curto tempo de convivência (só partilhei com ele 26 anos da minha vida), pude vê-lo cozinhando, limpando e priorizando o cuidado com suas filhas e filhos. Presenciei várias ações de reflexão com meus irmãos sobre a necessidade do respeito às mulheres e de proibição incondicional a qualquer ato de violência física, simbólica, intelectual ou de qualquer natureza e, principalmente, escutei diariamente que eu era uma mulher bonita, inteligente e capaz de conduzir a minha vida sem me submeter a nenhum tipo de relação de dominação.

Tornei-me uma mulher adulta, profissional, militante social e da Igreja, esposa, mãe e uma agente Cáritas… E aqui neste espaço onde estou, com todas essas faces, percebo que a tarefa de SER MULHER é uma construção diária, é um caminho de vida numa sociedade que se alicerça nas injustiças.

O caminho trilhado nas CEBs, nas pastorais sociais e na Cáritas me fez perceber que, enquanto a sociedade não for mais justa na distribuição de suas riquezas; enquanto não existir infraestrutura, como creches e escolas suficientes; enquanto todos os cidadãos não usufruírem de direitos civis e oportunidades iguais de trabalho; a libertação e emancipação da mulher tanto no campo do crescimento profissional como na esfera psíquica, afetiva e espiritual ocorrerá para poucas de nós. Assim como também o crescimento dos nossos companheiros, a ponto deles não temerem dividir seu corpo, mente e espaço com uma companheira que usufrua tanto legalmente como no seu coração dos mesmos direitos, continuará muito difícil.         

A transformação da nossa situação não exige apenas que se transformem as relações de produção, nem que as mulheres ocupem cargos de poder, apesar de isso ser muito importante, mas que sejam criadas condições que culminem numa nova ordem, nem masculina, nem feminina, e sim de cidadania plena para todas e todos. Para isso, como não vai ser fácil para os homens abrirem mão de seus privilégios, precisamos continuar mobilizadas e na luta.

Cátia Cardoso
Agente Cáritas Regional Nordeste 3 – Bahia e Sergipe
Data: 07.03.2016

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


MAGRE BRASIL

Faça parte dessa rede

Redes Sociais

Cáritas Notícias

Cadastre-se e receba por e-mail nossos informativos.
Prestação de Contas

Contato

Cáritas Brasileira
SDS - Bloco P - Ed. Venâncio III
Sala 410 - CEP: 70393-900


Brasília/DF
+55 (61) 3521-0350

caritas@caritas.org.br