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Programa Pana acolhe primeiro grupo de migrantes venezuelanos em Brasília

04 de dezembro de 2018

“Chegamos no fim da tarde, debaixo de chuva, sem tomar banho por seis dias. Viemos caminhando, pegando carona, passando necessidade. Tudo isso superamos”, conta a venezuelana  Mariluz Piñero, 48 anos, que chegou há pouco mais de um mês em Pacaraima (RR), na fronteira do Brasil com a Venezuela, em busca de trabalho, tratamento de saúde e melhores condições de vida para a família.

No Brasil, Mariluz tem a expectativa de trabalhar com crianças ou como comerciante, em casa. O esposo sonha em encontrar uma oportunidade de emprego como carpinteiro, operário ou auxiliar de serviços na área de construção civil.

Para atravessar a fronteira entre a Venezuela e o Brasil, Mariluz e os dois filhos, a menina, de 10 anos, é paciente crônica renal e o menino, de 12 anos, tem problemas de visão, tiveram que caminhar mais de mil quilômetros a pé para encontrar o esposo, que já vivia em Boa Vista (RR) há quatro meses e decidiu trazer a família, para juntos reconstruir a vida em Brasília. “Saímos [de Miranda, estado venezuelano] pela situação econômica, pela saúde do meu filho, a saúde da minha família e minha própria saúde”, afirma a mãe que também tem problema de visão e, ainda na Venezuela, precisou deixar o emprego para se dedicar integralmente aos cuidados com os  filhos. Mariluz espera que aqui no Brasil consiga tratamento adequado para os filhos, assim como sonha em poder realizar uma cirurgia ocular para recuperar a própria capacidade de visão comprometida por um glaucoma.

Agentes Cáritas que integram a equipe do Programa Pana recebem os migrantes na Base Aérea de Brasília.

A família Piñero chegou à Capital Federal, num voo da Força Aérea Brasileira (FAB) junto com mais 35 pessoas, na última quinta-feira (29). A Aeronave C99 da FAB trouxe também de Boa Vista (RR), outras 16 pessoas para Brasília na sexta-feira (30). O grupo de 55 pessoas vai se somar a mais 47 que chegam à cidade até o dia 19 de dezembro. Ao todo, nesta primeira fase do Programa Pana, a Capital Federal vai receber 102 pessoas, entre adultos, jovens e crianças.

Inicialmente o grupo está residindo em 11 casas e apartamentos subsidiados por aluguel social, na região administrativa de São Sebastião (DF), mantidos com recursos doados pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos (PRM), por meio da parceria com a Cáritas Suíça.

Processo de integração

Uma equipe multidisciplinar da Cáritas Brasileira vai acompanhar o grupo oferecendo atendimento psicossocial e jurídico, além de apoio para demandas de saúde, primeiras necessidades como alimentação, roupas, medicamentos, ambientação na cidade, acesso à rede de educação, serviços sociais e inserção no mercado de trabalho.

Ao chegar em uma das casas onde vão morar temporariamente, migrantes recebem orientações dos agentes Cáritas.

Entre o grupo de migrantes que já se encontro em São Sebastião (DF), uma grande porcentagem é de jovens. Victor Guedes, 29 anos, sonha em poder receber formação e trabalhar na área de hotelaria, mas também é designer de bijuterias e já trabalhou como autônomo fazendo bolos e doces. O jovem cruzou a fronteira brasileira há três meses, depois de superar uma longa jornada entre caminhadas e caronas. “Viemos da Venezuela até Pacaraima (RR) caminhando. Foi bem dramático porque não tínhamos dinheiro suficiente para as despesas da viagem, por isso, no caminho tivemos que dormir na rua e em vários povoados. Chegamos a Pacaraima no dia 1 de agosto e dali seguimos em outra caminhada para Boa Vista (RR). Neste caminho também encontramos gente muito boa, como por exemplo, uma comunidade indígena que nos ofereceu alojamento e comida”, conta o jovem venezuelano.

A viagem de Victor até Boa Vista durou sete dias, após chegar à capital de Roraima, o jovem ficou 15 dias nas ruas, sem comida, sem calçados, porque os sapatos se estragaram nos 15 quilômetros de caminhada entre Pacaraima e Boa Vista. “Mas tudo isso ficou para trás, as pessoas que conhecemos no Brasil foram todas muito boas e generosas. Depois desses dias consegui ficar em um abrigo e tudo melhorou porque aí já tinha um teto, três refeições por dia e possibilidade de tomar banho”, relata.

Victor pretende encontrar uma oportunidade de emprego para ajudar a mãe, o irmão, a vó e outros parentes que ficaram na Venezuela. O jovem diz que estar em Brasília é uma conquista depois da longa jornada desde a Venezuela até a região Norte do Brasil. “Pretendo trabalhar muito para oferecer o melhor para minha família, o que em nosso país não podemos ter neste momento, porque a situação econômica do nosso país está muito ruim, lá não há perspectiva de futuro, nem oportunidades. Não temos nenhuma oportunidade para ter uma casa própria, um trabalho digno. Então, estar aqui em Brasília é uma oportunidade maravilhosa e me recomendo a Deus confiando que tudo ficará bem, só tenho a agradecer”, diz o venezuelano recém-chegado a São Sebastião (DF).

Solidariedade organizada

Para receber os migrantes no Distrito Federal, a equipe multidisciplinar do Programa Pana organizou uma grande mobilização nas paróquias de São Sebastião (DF). O objetivo era conseguir doações de alimentos, roupas e utensílios domésticos. Em clima festivo e acolhedor, a comunidade católica recebeu os 55 migrantes com uma missa no último sábado (01), na Paróquia Nossa Senhora Aparecida. A celebração foi presidida pelo bispo auxiliar de Brasília, dom Marcony Vinícius Ferreira, padres das paróquias da região e comunidades.

Migrantes participam de missa de acolhida na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, São Sebastião (DF)

“Sabemos que muitos de nós passamos neste momento por dificuldades, necessidades e muitos sacrifícios, nosso país está passando por um momento muito, muito, crítico, na verdade a cada dia se afunda em um poço de miséria, nossas famílias estão morrendo de fome, é muito doloroso, precisamos da ajuda humanitária de vocês. Também enfrentamos dificuldades para encontrar emprego aqui no Brasil e apenas necessitamos de uma oportunidade de trabalho para conseguir alguma estabilidade para ajudar nossas famílias na Venezuela”, disse a venezuelana Yuly Margarita Teran de Boada, ao final da celebração.

Durante a missa, o bispo auxiliar de Brasília, dom Marcony Vinícius Ferreira, se dirigiu aos migrantes com palavras de acolhida. “Sejam de fato acolhidos no coração dos membros da Igreja em São Sebastião, de Brasília e do Brasil! Nós os acolhemos como irmãos e sabemos a potencialidade e a fé que cada um traz no coração”, disse o bispo.

Os migrantes foram recebidos na Paróquia Nossa Senhora Aparecida com um almoço.

O diretor-executivo da Cáritas Brasileira, Luiz Cláudio Lopes da Silva (Mandela), lembrou qual é a missão da instituição nesse cenário de grande fluxo migratório de venezuelanos e venezuelanas para o Brasil. “Na homilia dom Marcony falava que a Cáritas é família. De fato, temos uma tarefa imensa de organizar a solidariedade e a caridade nas comunidades cristãs, católicas e também na sociedade em geral. Agradecemos a todas as famílias de São Sebastião que já há algum tempo estão se dedicando para fazer com que essa acolhida seja muito mais que uma mudança ou um deslocamento dos irmãos e irmãs venezuelanas, mas se configure em um processo de integração”, destacou Mandela. O diretor-executivo da Cáritas Brasileira também enfatizou que o trabalho é uma das formas mais importantes de integração dos migrantes no Brasil e pediu que, além das generosas doações já realizadas, a comunidade católica contribua de forma efetiva com o processo de inserção social e no mundo do trabalho.

Voluntariado

Após a missa a equipe do Pana recolheu um caminhão e meio de doações feitas pelas comunidades paroquiais de São Sebastião. Um grupo de voluntários e voluntárias está trabalhando na triagem de tudo que foi doado e a Cáritas Brasileira vai abrir nos próximos dias um chamado para a admissão de pessoas dispostas a doar tempo e habilidades em vista da acolhida e integração dos migrantes venezuelanos em Brasília.

Programa Pana

O Programa Pana vai contribuir direta e indiretamente com a integração de migrantes e brasileiros em sete capitais do país. As iniciativas do Programa devem alcançar 3.500 pessoas entre migrantes venezuelanos e de outras nacionalidades, além de brasileiros. O ponto de referência para o Programa é a Casa de Direitos que terá sede nas cidades atendidas: Boa Vista, Porto Velho, Recife, Brasília, São Paulo, Curitiba e Florianópolis.

Por Jucelene Rocha – Rede de Comunicadores/as da Cáritas Brasileira

 

 

 

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