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O direito ao alimento como direito político

“A questão da ética é importante em relação aos alimentos. Ao invés de vivermos a era da ética, vivemos no século da biotecnologia”, sustenta Maria Emília Lisboa Pacheco, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, durante evento realizado na última noite de debates do XV Simpósio Internacional IHU “Alimento e Nutrição no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”. Diante de um público de mais de 90 participantes, Maria Emília, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – Consea, dividiu a mesa com Nilton José dos Reis Rocha, professor da Universidade Federal de Goiás – UFG. O eixo de debate da conferência foi a problemática da Nutrição no contextos dos Objetivos do Milênio. O evento ocorreu no Auditório Central da Unisinos, na noite da quarta-feira, 07-05-2014, a partir das 20 horas. A mediação do encontro foi feita por Henrique Arlindo Schuster, membro do Consea do Rio Grande do Sul.

Fronteira ética

Nós devemos falar de ética, pois estamos em um momento em que ‘optamos’ pela biotecnologia. Há que se repetir uma pergunta importante: o que nós estamos ou não estamos comendo?”, provoca Maria Emília. Para ela, esta questão tem um aspecto político muito importante no atual contexto. Contundente nas críticas, Maria Emília fez suas considerações sobre os Objetivos do Milênio. “Esses objetivos foram identificados desde uma perspectiva sem história, pois são formulados esquecendo a lógica do sistema político-econômico-social que são os geradores das situações que os próprios objetivos pretendem corrigir”, avalia.

Novo paradigma

“A fome é consequência de um modo de desenvolvimento”, dispara Maria Emília. Em sua opinião, os Objetivos do Milênio não levam em conta as diferenças dos países. “Precisamos de um novo paradigma. Um paradigma que signifique novas formas de produzir e consumir e nos orientar na defesa dessa causa que nos coloca diante de obstáculos cada vez maiores. Trata-se de uma reconstrução do sistema alimentar que é possível por meio de iniciativas cientificamente testadas. Precisamos pensar em como conseguir uma reconexão com quem produz e com quem consome”, sugere.

Crise de modelo

De fala mansa e sotaque de quem vem do interior e tem orgulho das origens, Nilton José dos Reis Rocha foi alvo de olhares sensíveis e ouvidos atentos durante sua conferência. Quase sempre iniciava suas considerações com a frase (uma espécie de bordão) que sintetiza bem seu jeito de ser: “Vou contar uma história”. “Quero falar das pequenas humanidades. Isso parece um pouco absurdo, um pouco provocador, mas temos que falar da recusa profunda em não se considerar os saberes e as culturas que existem nos povos originários e que são decisivos à humanidade”, argumenta Nilton. “Temos que buscar outros paradigmas que nos levem a outras epistemologias. É preciso, neste recuo histórico, considerar os saberes de nossos povos”, complementa.

Conhecimento

Para Nilton é preciso que as sociedades atuais pensem em conceitos como Pachamama e Sumak Kawsay, no sentido de buscar uma perspectiva mais naturalista com relação à produção de alimentos e à nutrição. “Que tipo de racionalidade nos leva a concentrar grandes populações em pequenas áreas, com um ou dois rios para milhares e milhares de pessoas?”, provoca o palestrante. “O Minha casa, Minha vida sem a reforma agrária agrava a situação política da concentração de pessoas. Nesse sentido, temos que democratizar a circulação do conhecimento para que as pessoas possam compreender essas complexidades”, aponta Nilton.

O professor encerrou sua participação como começou, contando uma história. “Lá no serrado, iam construir uma represa e os engenheiros reuniram kalungas que moravam na região para falar dos benefícios da construção e da mudança dos moradores para outro local. Ao fim da fala dos engenheiros, um senhor pediu a palavra e disse: – Doutor, ‘pra’ vocês onde o kalunga mora é ruim. ‘Pra’ vocês que estão acostumados com conforto. ‘Pra’ nós não. Onde o kalunga está é o melhor lugar do mundo e é o melhor lugar do mundo porque é onde a gente vive”, encerrou Nilton, sob efusivos aplausos, a noite de conferências.