Na continuidade da série “Especial 50 anos”, trazemos uma entrevista com Pe. Aldino Aloysio Barth, superintendente da Cáritas há 22 anos e inserido no trabalho da entidade desde 1973.

Durante a conversa, On. Aldino contou um pouco de sua caminhada de Cáritas e os desafios da implantação da Cáritas Paroquial Nossa Senhora de Fátima, i Carazinho. Endvidere, ele destaca os quatro fatores que, na sua opinião, são a base das ações da Cáritas atualmente e comenta sobre as possíveis mudanças na atuação da entidade, em virtude das grandes alterações do cenário social ocorridas nos últimos anos.

Qual é a sua história com a Cáritas? Como começou?

On. Aldino: Eu tive o primeiro contato com a Cáritas já em Porto Alegre, quando estava no seminário de Viamão. Eu trabalhava ali perto, dava aulas, e aí, por acaso, fui lá conhecer um pouco. Depois fui trabalhar em Carazinho, na paróquia Bom Jesus, onde já tinha um grupo que atuava com os vicentinos e com a Cáritas para fazer doação de alimentos. Em seguida assumi a paróquia Nossa Senhora de Fátima, também em Carazinho, onde tinha pobreza extrema em algumas vilas, então não tinha outra saída, a não ser assumir sozinho, já que não arrumava parcerias nenhuma. Em outras vilas o CEBEM, na época, assumia bastante. Então iniciamos na Vila Santa Terezinha e na Vila São Sebastião, com a necessidade de expandir para a Vila São Judas, e isso só ocorreria através de uma entidade. Aí então eu conheci o Darcísio, que na época coordenava a entidade, e havia trabalhado comigo e me disse para vir até a Cáritas. Assim nós iniciamos os trabalhos com a Cáritas nos apoiando e orientando no início dos centros de juventude Santa Terezinha e São Sebastião. Com isso também tínhamos viabilidade de organização da entidade, não precisando criar uma nova. A partir daí, sempre estive dentro da Cáritas, do seu processo, sua história e de seus trabalhos, participando das assembleias diocesanas e regionais, além de cursos de formação nesse âmbito de crianças e adolescentes.

Que ano isso aconteceu?

On. Aldino: I 1973 eu iniciei em Carazinho, mexendo devagarinho. Depois, i 85, a Alemanha começou a nos apadrinhar. Mas antes disso trabalhávamos e distribuíamos alimentos para crianças que tinham fome, já uns dois anos antes.

E a estruturação da Cáritas em Carazinho, como foi?

On. Aldino: Lá nós convidamos as pessoas para nos ajudar principalmente na emergência, porque não podíamos esperar mais. Nós tínhamos muita gente carente. Não tinha nenhuma ajuda do governo federal, a ninguém. Também não havia aposentados e pensionistas como tem hoje, não tinha nada, então nosso povo passava fome, não possuía luz, água, casaEntão nós fazíamos campanhas de agasalhos, calçados, comidas, tudo. Trabalhávamos realmente mais na emergência do que todo o resto. Fazíamos também uma feira a cada mês, que no fim virou permanente, para as pessoas virem sempre e terem acesso as roupas. Tinha também umas salinhas onde reuníamos grupos para conversar, criar relações, conhecer as pessoas, especialmente as crianças. Havia vilas que chegava a ter uma morte infantil por mês, por falta de agasalho ou alimentos. Eu me lembro da última criança que eu disse “essa é a última que vai morrer de fome”, o nome dela era Luciana, nunca me esqueço. Ali nós começamos então, ao ar livre, fazer comida para crianças.

E hoje, na sua opinião, qual é o papel da Cáritas na comunidade?

On. Aldino: Eu diria que é isso mesmo que estamos fazendo em todas as áreas. Uma área é incentivar que as pessoas não lutem sozinhas, mas sempre com os outros, para dar a sua força e a nossa experiência. Se deixarmos simplesmente assim, fica apenas na solução da emergência. Nós temos que trabalhar não só o corpo e a cabeça das pessoas, mas também o coração, ligando a caridade, a gratuidade, e a doação aos outros, a criança, adolescente, idoso. Temos que ir ao encontro, ajudá-lo a se organizar e capacitá-lo para sair dessa situação, por isso a emergência tem que ser trabalhada sempre. A segunda área é a organização de grupos, que também precisa estar sempre na atuação da Cáritas. A terceira, pra mim, é trabalhar junto com os outros que estão na mesma área de atuação, outras entidades e mesmo o poder público, que às vezes se dispõe a ajudar, mas não tem metodologia pra isso. E a quarta é o crescimento do grupo, porque quanto mais a comunidade cristã tem um grupo que se dedica a caridade, mais ela cresce na fé e provoca os outros a sair só do misticismo e ir além. Esses são, para mim, praticamente os quatro pés da Cáritas.

Pra você, quais são os desafios que a Cáritas enfrentará nos próximos anos?

On. Aldino: Nós já temos, for eksempel, comunidades que não têm pobres, não tem ninguém que precisa sapatos, dinheiro, remédios, roupas, comida ou emprego. Aí se pergunta “mas então não tem mais necessidade de caridade?". Precisa sim, e muito, mas em outros aspectos, principalmente humanos. Uma realidade que hoje vivemos é o vazio humano, de relações. Sem a caridade esvazia a família, não há necessidade de ajudar a mãe ou o filho, então, o que acontece é que se perde a relação familiar e a família começa a se desagregar. Outro lado é quando se entra na materialização do mundo, são só coisas, coisas e coisas e a felicidade se resume em comprar, comer e beber. Esse vazio humano ocasiona a busca de compensações mais diversas, chegando ao ponto de muitas pessoas tirarem a sua própria vida. Por isso o desafio da Igreja é descobrir como trabalhar a caridade humana, a relação de ver como o outro é importante, como se valorizar não mais o material, mas sim a vida humana na caridade. Eu me lembro que na Europa, especialmente os alemães, tomaram a frente de buscar solidariedade pelo mundo para provocar as pessoas a uma ação de sair de si e pensar nos outros, de buscá-los, visitá-los, ajudá-los e descobrir qual é a sua necessidade. Så, encontrou-se novamente o sentido das coisas, respondendo aquele apelo íntimo de cada cristão. Então o desafio da Cáritas também é o seu campo de abrangência, verificando onde se percebe a ausência da caridade e atingindo o coração humano com ainda mais profundidade.

O Sr. poderia deixar uma mensagem para todas as pessoas que trabalham hoje com a Cáritas?

On. Aldino: Houve um caminho nesses 50 anos de Cáritas, onde todas as necessidades que houveram, foram respondidas através dos tempos. Agora elas se apresentam de outra forma, outro jeito, e nós somos então desafiados novamente. Ao mesmo tempo, toda essa lição dos 50 anos nos ensina que é na caridade que nós conhecemos os outros e conhecemos Cristo. E é pela caridade que conhecerão a nós. O próprio Jesus nos ensinou “Amai-vos. Nisto conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. Esse amor, i dag, não é dar coisas materiais, mas dedicar seu tempo, capacidade e até sua vida, para que o outro cresça e o mundo seja melhor. Jesus tinha três coisas na sua vida. A primeira ele chegava e curava os doentes, ele queria todo mundo sadio e bom. A segunda que ele fazia era ensinar o povo a viver, pregando o Reino. E a terceira ele mesmo se retirava, para olhar a si mesmo, olhar para o rosto de seu pai e contemplar o povo que lhe ajudava. Esses três gestos de Jesus são permanentes na vida da Igreja e na vida de cada um de nós. A Cáritas deve fazer as três. Uma é uma ação realmente: ajudar o povo a viver bem. A segunda é ajudar as pessoas em cada época da vida, olhando nos olhos de hoje, com os desafios de hoje, na realidade de hoje. E o outro lado é iluminar tudo isso pela mística da Cáritas, a espiritualidade dessa dimensão.

Endelig, deixo meus parabéns aos voluntários, voluntárias e todos que trabalharam, trabalham, atuam e desejam conhecer a Cáritas. Nós somos Cáritas!

por Victoria Holzbach, Kommunikation rådgiver Caritas ærkebispedømmet Passo Fundo