Diminuir tamanho da fonteAumentar tamanho da fonte

Nascida em uma família numerosa

11 de março de 2016

“..Pois aqui está a minha vida,pronta para ser usada,vida que não se acaba,nem se esquiva assustada,vida sempre a serviço da Vida,para o que vale a pena e ao apresso do amor.”

 Thiago de Mello.

Nascida em uma família numerosa, de maioria mulheres, (sete mulheres e um homem), sempre vi como muito natural a liderança da minha mãe, Dona Maria José. E talvez por isto, eu tenha sido tão marcada pelo seu exemplo.

A minha mãe era uma profissional de saúde, auxiliar de enfermagem, no  antigo SESP(Serviço especial de saúde publica) vinculado ao governo federal. Naquele tempo, anos 50/60 era um serviço muito importante nas pequenas cidades ribeirinhas.

Ela herdou do meu vovô uma fé inabalável em Deus e uma vontade incansável de trabalhar com as pessoas empobrecidas. Uma mulher simples, carismática, de voz mansa, muito tranqüila. Uma forte liderança em nossa comunidade.

Nos anos 60,70 nas pequenas cidades quase não existiam padres, era muito comum ter mulheres que assumiam nas igrejas a realização dos cultos, batizados, preparação dos jovens e adultos para primeira comunhão. Recordo-me nas semanas santas, nas vias sacras, a minha mãe conduzindo/realizando toda reflexão num santuário lotado de pessoas. Eu sempre ficava pensando e perguntava para ela, como é que ela dava conta de conduzir tudo aquilo, com tanta tranqüilidade? Ela apenas sorria!

Desde pequenos/as  aprendemos que a nossa mãe, não era só nossa, ela era mãe de muitas pessoas! A nossa casa era uma casa aberta a todas as pessoas que precisassem de alguma coisa. Material ou espiritual. Mãe estava sempre recebendo pessoas que buscavam  aconselhamento,  era  confidente de tantas mulheres com seus problemas com os maridos ou com os filhos.

Recordo-me em minha casa de um quartinho que vivia cheio de doações (roupas, calçados, alimentos). O sábado era um dia movimentado, apareciam os que tinham algo para doar e os que necessitavam da doação. E minha mãe ainda encontrava tempo aos sábados, para dar aulas de corte e costura, em nossa casa, para as mulheres empobrecidas.

Sendo  ministra da eucaristia e também uma profissional da área da saúde, ela  era chamada,a qualquer hora, quando alguém estava doente ou quando estava morrendo.  Nem posso imaginar quantas pessoas ela preparou para o batismo, para o casamento, ou esteve junto no momento de falecimento.

Evidentemente existia algumas vezes  tensões entre  ela e meu pai e também uma sobrecarga de trabalho para uma mulher que trabalhava fora e tinha oito filhos e uma vida social tão intensa. Embora meu pai  também cozinhasse,participasse  das reuniões na escola,contribuísse de alguma maneira com as tarefas domesticas. E hoje penso que uma mulher que escutava o sofrimento de tantas pessoas, possivelmente carregava consigo muitas dores. Quem sabe isso a levou a ter um câncer no pâncreas no inicio dos anos dois mil.

Essa mulher marcou a minha existência e me fez apaixonar e também querer dedicar a minha vida ao trabalho de transformação social. Evidentemente que participar do Movimento do Graal, estudar sociologia, me possibilitou ampliar o meu olhar e compreensão de mundo. Mas sei que nada disso seria suficiente se o meu SER não fosse tocado pela  experiência de vida que tive com a minha mãe.

É com essa vivencia que chego à Caritas Brasileira no final dos anos 80. E hoje sei que não existiria outro lugar em que eu me sentisse” tão em casa”. A Caritas me conquistou com a possibilidade de integrar dois elementos que sempre me foram caro: a mística e espiritualidade e o trabalho social. Elementos que foram se tornando essenciais na minha trajetória de vida.

Nos onze anos na Caritas em Minas Gerais  conheci e experenciei    a solidariedade cotidiana na convivência  com tantas mulheres e homens. Com mulheres como a Dona Marta de Unaí,  dona Preta do assentamento Saco do Rio Preto; Com a D. Geralda, catadora de papel em Belo Horizonte; com a Nancy  na luta por Moradia popular,  fui reafirmando a minha compreensão de que as mulheres, de diferentes maneiras,assumem  lutas  e são capazes de  colocar toda sua vida pelas  mesmas. Vivem e morrem por elas.

Estando no SecNac tive a possibilidade de ampliar esse olhar e  conviver  com  tantas outras mulheres de Caritas, que como eu, descobriram nessa Instituição a possibilidade de experienciar  a solidariedade  e contribuir na transformação da sociedade. Mulheres capazes de contribuir para que todas as pessoas sejam oportunizadas a lutar pelos seus direitos, a protagonizar a sua própria historia. Mulheres de Caritas  que vão,  construindo  caminhos de  solidariedade   no tecer da cada dia.

Cristina dos Anjos

Secretariado Nacional

Cáritas Brasileira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Comentários

Iris José dos Anjos:

Lindo !!!! Simplesmente maravilhoso !! A sua vida e a de nossa Mamãe que hoje está no céu.

MAGRE BRASIL

Faça parte dessa rede

Redes Sociais

Cáritas Notícias

Cadastre-se e receba por e-mail nossos informativos.
Prestação de Contas

Contato

Cáritas Brasileira
SDS - Bloco P - Ed. Venâncio III
Sala 410 - CEP: 70393-900


Brasília/DF
+55 (61) 3521-0350

caritas@caritas.org.br