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Emergências e segurança alimentar: duas forças relacionadas

“A fome não é algo natural, a fome é um problema político!” Ministro Milton Rondó, durante debate com agentes latino americanos e caribenhos da Rede Cáritas.

Debates sobre segurança alimentar pautaram os trabalhos da manhã desta quinta-feira (22) do VIII Encontro de Meio Ambiente, Gestão de Risco e Emergências, que ocorre em Brasília (DF) desde a última terça-feira. Para auxiliar e orientar a discussão, exposições temáticas foram realizadas por Adriana Oppromolla, da Caritas Internationalis, e pelo ministro de Relações Exteriores, Milton Rondó.

Os desastres socioambientais estão diretamente relacionados com as mudanças climáticas cada vez mais presentes no cotidiano mundial. Mas, além de agravar as situações de emergências, as mudanças climáticas afetam diretamente a produção de alimentos. Períodos de grandes estiagens, bem como de inundações refletem na qualidade e quantidade da produção, por exemplo, refletindo na sustentabilidade alimentar das pessoas.

Neste sentido, Adriana Oppromolla falou sobre a campanha mundial “Uma família humana, alimento para todos”, promovida pela Rede Cáritas em todo o mundo que discute, principalmente, o direito à alimentação. “Queremos elaborar uma lei modelo que garanta o acesso e o direito ao alimento a todo ser humano. O problema da alimentação não é a falta de comida no mundo, mas a distribuição, o acesso. Isso é uma questão de justiça social. Quando falamos de alimentação, não falamos somente do ato de comer, mas de todo o processo desde a produção, por exemplo”, destacou.

Segurança alimentar

De acordo com a Organização para Alimentação e Agricultura (FAO), segurança alimentar e nutricional é definido como forma de “garantir a todos condições de acesso a alimentos básicos e de qualidade, em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, com base em prática alimentares saudáveis, contribuindo assim, para uma existência digna, em um contexto de desenvolvimento integral da pessoa humana.” Porém, no decorrer dos anos, o conceito ganhou novas leituras. Atualmente, a segurança alimentar considera também que o abastecimento de alimentos tem importância estratégica decisiva para a preservação dos interesses de cada país. Logo, o conceito passou a ser tratado como questão de segurança nacional.

Soberania alimentar

O ministro de Relações Exteriores, Milton Rondó, iniciou sua exposição sobre diretrizes de segurança alimentar dizendo que o conceito evoluiu para soberania alimentar, que, de acordo com ele, agrega a capacidade de cada país em garantir políticas públicas de alimentação. Rondó também é coordenador geral de ações internacionais de luta contra a fome.

O conceito de soberania alimentar considera que para ser livre um povo precisa ser soberano e essa soberania passa, necessariamente, pela alimentação. Ser soberano significa produzir e comercializar comida localmente, vinculada a cultura e ao modo de vida da população, afastando a dependência que existe dos grandes mercados internacionais para alimentar o povo de um país. A soberania passa ainda pela saúde, com uma produção limpa, sem agrotóxicos ou veneno, e tem por objetivo o equilíbrio ambiental.

“No Brasil três cadeias de supermercados controlam 70% da distribuição dos alimentos e para ter acesso a esse alimento a pessoas tem de ter uma renda mínima para comprá-lo. O problema da alimentação não é a quantidade, mas a distribuição, o acesso ao alimento”, reafirmou o ministro. Ele lembrou que o país tem a sétima maior economia mundial, sendo um dos maiores produtores de alimentos, porém milhares de pessoas ainda passam fome.

Márcio Adriano, da Cáritas Brasileira Regional Minas Gerais, durante o debate destacou que a questão da alimentação, especialmente no Brasil, passa necessariamente por uma reforma política. “Nosso congresso é dominado por uma bancada ruralista que atende aos interesses do agronegócio. Não temos representação negra, feminina, campesina efetiva”, ressaltou. Nesta perspectiva, Rondó afirmou: “a fome não é algo natural, a fome é um problema político!”

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por Thays Puzzi, assessora de Comunicação da Cáritas Brasileira | Secretariado Nacional