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Em encontro com Caritas Manaus, cacique indígena afirma: “ontem nossa luta foi com arco e flecha, hoje é na canetada”

19 de novembro de 2018

Comunidade Indígena Tikuna Wotchimaücü, no Amazonas – Imagens Luis Miguel Modino

Marginalizados nas periferias, vítimas de preconceito e a desigualdade, com dificuldade para preservar sua cultura, língua e tradições, no meio a muitas outras dificuldades, a vida dos povos indígenas na cidade nunca foi fácil. A Comunidade Indígena Tikuna Wotchimaücü está situada na Cidade de Deus, zona norte de Manaus. Chegaram da região de Alto Solimões, fronteira com o Peru e a Colômbia, atrás de estudo e emprego, há mais de 30 anos, e desde há 19 se constituíram em associação.

Mesmo diante das dificuldades, eles ensinam sua língua às crianças e continuam realizando suas apresentações culturais. O objetivo da Associação Wotchimaücü é fortalecer a cultura, educação e saúde diferenciada, a formação política, e criar elementos que possam garantir o sustento, como é o artesanato. Para isso eles contam com um centro cultural desde 2005, que foi apoiado pelo Centro de Direitos Humanos da Arquidiocese de Manaus e financiado pela embaixada da Irlanda.

O apoio dos parceiros, Caritas Arquidiocesana de Manaus, Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime), e da Pastoral Indigenista de Arquidiocese de Manaus (Piama), é fundamental para os tikunas de Manaus. O Presidente da Associação afirma que “graças a esses parceiros, hoje estamos aqui. Eles passaram para nós as informações para ser indígenas na cidade”. Segundo ele, “na Associação a porta sempre foi aberta, pois cada indígena precisa dessa orientação e apoio. É necessário trazer a imagem dos povos indígenas para a atualidade”.

Como acontece com muitas comunidades, tanto nas cidades como no interior, o desafio maior é a regularização fundiária, pois a terra está na mão do poder público. De fato, nenhuma comunidade indígena da cidade de Manaus têm a propriedade da terra onde mora, segundo os próprios indígenas. A consequência é que não é construída nenhuma escola ou posto de saúde para os indígenas.

Por isso, eles afirmam que seu sonho é ter saúde e educação diferenciada, um direito garantido pela própria Constituição brasileira. A desculpa do governo é que eles já são cadastrados no Sistema Único de Saúde – SUS, mas para os indígenas esse é um sistema de saúde para os brancos, e muitos indígenas estão morrendo, pois esse é um sistema precário e eles não têm recursos para pagar o sistema privado de saúde.

Mesmo assim, os indígenas tikuna de Manaus afirmam que “resistimos, estamos resistindo”. Mas isso não é fácil, pois a realidade, nem só em Manaus como em outros lugares, é que o preconceito e a discriminação faz com que crianças e jovens não se assumam como indígenas e cheguem a dizer que o pai e mãe deles são indígenas, mas eles não. Os próprios indígenas contam que muitas vezes tem que escutar palavras que doem, por que vocês vieram na cidade se vocês já tem área indígena no interior? Por que é que índio vem para a cidade chorar por um pedaço de terra? Diante disso, e de um governo que vende a terra até para os estrangeiros, os indígenas se perguntam como é possível que eles não possam ter um lugar onde poder morar.

Se faz necessário construir não só para se próprio e sim para o povo como um todo, reconhecem os indígenas de Manaus. Construir juntos, ir atrás, pensar em conquistar por se próprio, pois eles mesmos afirmam que tem sabedoria para conquistar as coisas. Tudo isso, diante da falta de direitos que os próprios indígenas reconhecem, uma realidade que pode piorar com a chegada de um governo declaradamente anti-indígena. Por isso, temos que nos unir e organizar mais, afirmam eles.

Desde Caritas Manaus, Marcos Brito, Agente Caritas, que acompanha a questão fundiária, insiste na necessidade de se empoderar, de conhecer os direitos sobre a terra, como é a lei do uso capião. De fato, existem possibilidade de avanço e para isso se faz necessário conhecer os direitos, a legislação. Nesse sentido, o cacique da Comunidade Indígena Tikuna Wotchimaücü, afirma que “ontem nossa luta foi com arco e flecha, hoje é na canetada, para que a nossa palavra tenha valor”.

Por Luis Miguel Modino – Cáritas Manaus

Crianças da comunidade Indígena Tikuna Wotchimaücü

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