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Cardeal Tagle: abrir nossos olhos e corações para acolher migrantes e refugiados

07 de abril de 2017

Mensagem de Páscoa do cardeal Luis Antonio Tagle, presidente da Caritas Internationalis:

Minha família começou com a emigração de um menino. Meu avô paterno nasceu na China. Sua mãe era muito pobre, por isso entregou seu filho a um parente que estava viajando para as Filipinas – e foi aí onde eu nasci e cresci.

A emigração é uma oportunidade para que as pessoas prosperem como seres humanos. É uma oportunidade para criar uma vida melhor para elas mesmas e para gerações futuras. Ainda que forças destruidoras, como a guerra e a pobreza, perturbem a vida humana e a vida familiar, a emigração nos mostra a nobreza do espírito humano. Como Jesus em seu calvário até a cruz, a emigração obriga as pessoas a irem mais além de suas fronteiras físicas e mentais, com suas capacidades no limite, e as conduz por desertos de solidão e rejeição. Não obstante, tais pessoas suportam esta viagem de sacrifício por uma causa nobre.

Nas fotos seguintes, o cardeal  Luis Antonio Tagle ainda bebê e seu avô. Fotos: arquivo pessoal.

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Não devemos esquecer que as pessoas têm o direito de emigrar e escolher o lugar onde pretendem prosperar. Sem dúvida, também têm o direito de não emigrar e de viver uma vida digna em sua terra. Muitos quiseram permanecer nos países e aldeias onde nasceram, como estou seguro que gostaria de ter feito o meu avô, mas quando seu país é devastado pela guerra ou simplesmente não pode te oferecer um emprego e uma vida estável, há que se tomar decisões difíceis.

É uma benção ser chamado à presidência da Caritas Internationalis também pela possibilidade de conhecer refugiados e migrantes, especialmente aqueles que estão presos. Isso tem feito vir à tona claramente o sofrimento que os seres humanos podem infligir uns aos outros. As guerras e o ódio têm se tornado sistêmicos em algumas partes do mundo, destruindo vidas humanas e comunidades.

Aqueles que emigram nos mostram “em todas as cores” as consequências do ódio e da divisão, a injustiça e os danos. Não devemos esquecer nunca a dignidade inalienável e o valor de cada uma destas pessoas. Somos chamados a fomentar o bem comum de nossa família humana mundial, não somente o bem de nossas próprias famílias e países. Os emigrantes são a memória viva de que devemos agir como guardiães da criação e mudar sistemas injustos, porque muitos deles são vítimas das mudanças climáticas ou da pobreza, causados porque os recursos da Terra não são compartilhados equitativamente.

Nos emigrantes, também temos a oportunidade de maravilhar-nos diante da beleza da pessoa e explorar a profundidade do amor e do cuidado que são capazes de oferecer os voluntários da Cáritas e das comunidades envolvidas. Nenhuma penalidade, dor, cansaço nem fadiga pode eliminar por completo a generosidade, a compaixão e a nobreza do coração humano.

Conhecer os emigrantes em meio a todas as suas dificuldades e escutar seus anseios e sonhos têm feito perguntar-me: o que é verdadeiramente importante para mim? As coisas que antes considerava essenciais agora não são nada, comparadas com os valores da dignidade humana, a vida, a família, o futuro e as gerações futuras. Eu espero que a emigração mundial e a situação dos refugiados provoquem em todo o mundo um exame coletivo de consciência e de nossos sistemas de valores.

Nas imagens abaixo, o cardeal Tagle com a avó e o avô em sua ordenação sacerdotal, em 1982. Fotos: arquivo pessoal.

CardinalChitoOrdination 11 Compreendemos que cada país atravessa suas próprias penas e suas próprias lutas. Existe a tentação de dizer: “por que temos que atender as necessidades destas pessoas quando temos que cobrir nossas próprias necessidades?”. Estas mesmas pessoas poderiam dizer: “a caridade começa em casa”. Mas temos que recordá-las que a caridade não deve terminar em casa. Podemos ampliar essa “casa”.

Os países que utilizam as dificuldades como desculpa para não atender as necessidades dos emigrantes sabem quais são suas próprias necessidades. E suas necessidades são as mesmas dos emigrantes. Não deixemos que nossa condição de dificuldades nos separe deles, porque ela deveria nos unir mais a eles, já que todos sabemos o que significa estarmos em necessidade. Da mesma forma, os países que fecham suas fronteiras aos estrangeiros deveriam recordar que, no passado, eles próprios foram recebidos por outros países.

Enquanto nos preparamos para receber ao Senhor ressuscitado, tenho tão somente uma simples sugestão aos católicos, e também aos cristãos não-católicos: entrem em contato com um emigrante. Muitas vezes se teme a emigração como conceito e como movimento. Nos esquecemos que ela não é um fenômeno. Tratam-se de seres humanos.

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A Cáritas lançará uma campanha mundial em setembro para convidar as pessoas a fazer justamente isso: encontrar-se com os emigrantes, compartilhar suas histórias e suas experiências com eles e reconhecer nossa humanidade comum.

Se lhes olham nos olhos, verão algo dentro de vocês mesmos que pode lhes envolver, anulando o medo e a resistência. Temos medo de algo que não conhecemos, e podemos ampliar e transformar esse algo em uma ameaça. Quando entramos em contato com seres humanos de carne e osso, vemos que todos estamos conectados. Igual aos discípulos no caminho a Emaús, pode ser que não compreendamos de imediato quem nos está acompanhando em nossa viagem. Mas, sem dúvida, uma vez que tenhamos aberto nossos olhos e nossos corações, seremos mais acolhedores com o estrangeiro.

Por cardeal Luis Antonio Tagle

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