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Das jangadas às borboletas: um debute de partilhas e participação

11 de novembro de 2013

Luiz Cláudio Mandela[1]

Se fossemos uma adolescente de 14 anos estaríamos ansiosas para saber como seria a nossa festa ou o que iríamos ganhar de presente ao completar os 15 anos. Pois é, da realização do primeiro congresso da Cáritas, em 1999, até a sua XIX Assembleia realizada em outubro de 2013 já se passaram 14 anos, e uma verdadeira revolução se passou por dentro dessa senhora que, ao contrário da debutante citada a cima, já é uma madura senhora/entidade de 57 anos.

O primeiro congresso da Cáritas, realizado no final da década de 1990, além de ser o evento das jangadas (símbolo definido para as imagens do congresso realizado em Fortaleza – Ceará) foi também o momento em que a Cáritas, então com pouco mais de 40 anos, decidiu mergulhar num processo e estruturar suas ações por meio de prioridades, linhas de ação, planos e projetos, além de também soltar as velas e dar partida no que seria a grande mudança em sua dinâmica e estrutura de gestão.

Se a Cáritas fosse uma entidade uno teria dificuldades, porém seria muito mais fácil superar os dois desafios que ela mesma se impós ao final do congresso de Fortaleza. A grande questão é que a Cáritas era e continua sendo uma grande rede, com uma imensa diversidade, enraizada em todo o Brasil e em permanente crescimento. Foram anos, diversas assesorias, um mergulho em variadas teorias de planejamento.  Passaram-se quatro anos entre a decisão de realizar um planejamento estratégico no congresso de comemoração dos 50 anos em 2006 (Aracaju-SE), e a sua implementação no decorrer do quadriênio de 2008/2011, para ao final ter consolidado o que hoje é conhecido em toda a rede como o sistema de PMAS[2] da Cáritas Brasileira, estruturado a partir do que tem sido o maior valor metodológico da rede Cáritas: a participação efetiva dos seus agentes.

Todo este processo de construção e de superação, tanto foi sentido no desenvolvimento das suas ações junto aos grupos e comunidades empobrecidas deste Brasil, quanto também na forma e na dinâmica de se ver e de fazer da Cáritas Brasileira. Multiplicaram-se no interior da rede as coordenações colegiadas, os grupos de trabalhos, encontros de diretorias e a construção da rede de Cáritas Paroquiais como exemplos, dentre outros, de ampliação e horizontalização das decisões e dos encaminhamentos da Cáritas. “O poder serviço” se tornou um lema que orientou no decorrer dos últimos anos, todos os processos de discussão e da gestão na Cáritas. Óbvio que muito ainda precisa caminhar para se atingir cada vez mais o sonho pensado por muitos desde as plenárias do congresso de Fortaleza ao som dos ventos ou mesmo do apito do trem que nos guiou durante o congresso de Belo Horizonte em 2003, onde o desafio era refletir do local ao global a partir do olhar da rede Cáritas.

Pois foi essa eterna vontade de acertar e ser cada vez mais testemunho, espelho e  quem sabe até caminho, que fez com que a Cáritas no seu quarto congresso, que ocorreu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em 2011, decidisse por orientar suas ações por uma diretriz:

“A Cáritas Brasileira se compromete com a construção do Desenvolvimento Solidário Sustentável e Territorial, na perspectiva de um projeto popular de sociedade democrática.” 

Esta diretriz foi o coroar de um processo de amadurecimento prático da Cáritas no decorrer destes últimos 14 anos de  desenvolvimento e concretização da sua missão. É com ela que na diversidade de ações, práticas, programas e projetos, a rede determina um horizonte que vem sendo trilhado por meio das três prioridades estratégicas, possibilitando que nos dois primeiros anos do atual quadriênio, a instituição já pudesse avaliar e perceber os impactos do plano de ações e metas definidos no congresso em novembo de 2011, no Rio Grande do Sul.

Na primavera de 2013, após mais um ano de execução e também de avaliação, chegaram as borboletas, grandes, pequenas, coloridas, desfilando, passeando. Assim como fizeram as velas das jangadas no congresso de Fotaleza, as borboletas também trouxeram o grande desafio: olhar a enormidade do infininto, que para a rede Cáritas é a realidade de pobreza, desigualdades e séculos de um processo contínuo de empobrecimento de milhões como consequencia do enriquecimento de poucos.

A assembleia de Brasília, 14 anos depois do congresso das jangadas, trouxe as borboletas como símbolo do transformar, da afirmação que muitos intelectuais chamam de “endógeno”, ou seja, mudar-se, tranformar-se por dentro, de dentro e com as forças e fraquezas que se produzem e se conflitam dentro, no núcleo. Talvez, a beleza e leveza das borboletas da assembleia não queriam dizer e nem desafiar a Cáritas para isso, porém a sua liberdade de seguir o vento e sua coragem de se encapsular para se tranformar, alimentou os debates e as reflexões durante os dias da assembleia e possibilitou que as centenas de representantes dos milhares de agentes Cáritas de todo o Brasil saíssem com o compromisso de “perguntar”, de abrir os ouvidos para que o Brasil grande, para chamar o país continente para que se encapsule e sinta seu povo no próximo período.

Se não bastasse este grande desafio, as borboletas ainda solicitaram mais da Cáritas. Talvez, elas não tenham pedido nada de novo se olhássemos para as ondas que ainda teimam em jogar as jangadas ao infininto. Elas também querem que a Cáritas, assim como elas, embelezem os céus, mesmo isto só sendo possivel quando juntas inundam o espaço com suas cores e em tamanhos diversos. Assim como as borboletas e as ondas dos oceanos, a Cáritas é desafiada mais uma vez a apronfudar seu enredamento, mergulhar fundo na participação e guiar-se pelo o “poder serviço” como parte constituinte de seu ser. Quem sabe a debutante terá muito mais para festejar no momento de seu debute.


[1] Faz parte da coordenação da colegiada nacional da Cáritas Brasileira (mandela@caritas.org.br)

[2] Sistema de Planejamento, monitoramento, avaliação e sistematização.

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