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Convite para o diálogo, artigo de dom Demétrio Valentini

27 de setembro de 2013

Continua repercutindo em todo o mundo a longa entrevista que o Papa Francisco concedeu ao diretor da revista La Civiltà Cattolica, dos Jesuítas. Sua própria extensão, e a diversidade de assuntos abordados, sinalizam com clareza a intenção do Papa de fazer desta entrevista uma ampla plataforma de diálogo em torno de assuntos importantes, que ele acha necessário abordar.

Assim fazendo, ele começa a implementar o que ele mesmo aconselhou a fazer: “promover a atitude do encontro, que leva à cultura do diálogo”.

Quando se aposta no diálogo, é possível abordar assuntos, em torno dos quais não é preciso supor que todos tenham o mesmo posicionamento. Pois o diálogo estimula a busca de consensos, que não precisam ter de imediato o caráter de verdades absolutas, mas de realidades concretas, vividas por pessoas, que merecem contar, no mínimo, com nossa atenção respeitosa. Com isto se abre caminho para uma reflexão mais atenta, a respeito de situações vividas por pessoas que carregam problemas, que elas sentem no mínimo a necessidade de verbalizar.

A Igreja precisa estar atenta às oportunidades que estas pessoas nos oferecem, para mostrar ao menos nossa proximidade e nossa escuta.

A Igreja não precisa estar sempre com o braço levantado, pronta para condenar pessoas que vivem em situação irregular, do ponto de vista dos parâmetros legais.

Neste contexto, se entende melhor o que o Papa quis dizer com estas palavras:

“Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e ao uso de métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas, e me censuraram por isto. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido, eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disto continuamente”.

Mesmo em assuntos onde o parecer da Igreja já é definido, é possível estabelecer  um diálogo construtivo, que aproxime as pessoas. Mas a Igreja não pode assumir, preventivamente, uma atitude de condenação radical, só baseada em princípios, e sem levar em conta a realidade concreta em que as pessoas vivem.

A propósito deste posicionamento, o Papa Francisco reitera uma de suas recomendações mais insistentes: usar de misericórdia. Assim ele se expressa:

“Esta é também a grandeza da confissão… O confessionário não é uma sala de tortura, mas lugar de misericórdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. Penso na situação de uma mulher, que carregou consigo um matrimônio fracassado, no qual chegou a abortar. Depois esta mulher voltou a casar e agora está serena, com cinco filhos. O aborto pesa-lhe muito e está sinceramente arrependida. Gostaria de avançar na vida cristã. O que faz o confessor?”

Além da atitude de misericórdia, o Papa apela para um princípio muito importante: é preciso, sempre, respeitar a dignidade pessoal de cada um, e partir da condição de liberdade, na qual fomos criados por Deus. Assim se expressa o Papa:

“Deus, na criação, tornou-nos livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é possível. Uma vez uma pessoa, de modo provocatório, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com outra pergunta: “Diga-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou a rejeita, condenando-a?” É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia”.

Portanto, é preciso levar em conta as situações que as pessoas vivem. Em todas elas “devemos anunciar o Evangelho,… pregando a boa nova do Reino e curando todo o tipo de doença e de ferida. Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isto. Durante o voo de regresso do Rio de Janeiro disse que se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, quem sou eu para julgá-la”?

O Papa está propondo uma postura nova, de acolhida, de compreensão e de misericórdia, que não se limite à repetição de juízos teóricos, ao mesmo tempo que não abandona os princípios,  leve sempre em conta o contexto vivido pelas pessoas.

Esta a proposta.  Ela levará a desdobramentos importantes na prática pastoral da Igreja. O Papa lançou o desafio. Vamos seguir o exemplo que ele nos deixou.

Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales (SP) e membro da Rede Cáritas Brasileira

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