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Conflitos no Oriente Médio e sua contextualização

21 de outubro de 2015

Desde o final da Segunda Guerra Mundial – que começou em 1939 e terminou em 1945 -, os conflitos no Oriente Médio têm tomado dimensões cada vez maiores e devastadoras. Especialmente porque, se naquela época o número de mortes foi causado pela quantidade massiva de grandes potências envolvidas nos conflitos, nos dias de hoje a guerra, que se restringe majoritariamente aos países árabes, tem causado um estrago equivalente. Com um saldo que ultrapassa 100 mil mortos só na Síria, os conflitos têm deixado para trás um rastro de violência, destruição e, consequentemente, fuga em massa. Rastro este que está longe de ter data para acabar.

Agência Lusa/Google

Agência Lusa/Google

A guerra civil no Oriente Médio já acumulou um total de 80 milhões de refugiados, o maior número desde a Segunda Guerra Mundial, segundo dados da Agência da ONU para Refugiados (Acnur). Nunca se viu tantas pessoas se deslocando pelo globo atrás de novos lares, novas perspectivas e de um novo recomeço.

Classificada pela ONU como a “grande tragédia do século 21”, os conflitos na região começaram com a Revolta de Simko Shikak, em 1918, na Pérsia, e se alastraram através das décadas, culminando na Primavera Árabe, em 2010, e nos confrontos mais recentes na Síria.

ampo de refugiados sírios, no Líbano

Campo de refugiados sírios no Líbano (Foto: Ceiri)

“Podem-se considerar os conflitos mais amplamente difundidos ou divulgados contemporaneamente, quais sejam: conflito Israel-Palestina, guerra civil síria, ataques aos houthis no Yemen, crises institucionais e guerra civil no Iraque e Líbia e os conflitos em virtude da ascensão de grupos terroristas islâmicos extremistas como o Boko Haram na Nigéria, o El Shabab na Somália e o próprio Estado Islâmico do Iraque e de El-Sham”, explica Natalia Nahas, articulista semanal do Ceiri Newspaper e diretora de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe (Icarabe).

Nestes quase 100 anos de guerras, o número de óbitos já ultrapassa a casa dos milhões. Não são só soldados e voluntários na luta. Pessoas inocentes morrem todos os dias, seja no meio dos conflitos, seja durante as tentativas de fuga para se livrar deles.

À destruição potente causada pelo poder de fogo usado nos confrontos soma-se a falta de liberdades básicas, o que culmina em uma onda de miséria humana. Em meio às justificativas para os conflitos estão desde a busca por petróleo – tendo em vista que o Oriente Médio é uma das principais regiões produtoras do mundo – até a religião. Sem contar a colonização, uma vez que Palestina, Jordânia, Egito e Iraque ficaram como protetorados da Inglaterra, e as regiões que compõem Síria e Líbano sofreram processos coloniais por parte da França.

Saulo Nepomuceno,  membro do Grupo de Pesquisa Cultura, Memória e Desenvolvimento, e Gabriela Rodrigues, pesquisadora do Laboratório de Ensino de Sociologia Lélia Gonzalez, explicam a situação. 

Família Síria (Foto: Acnur)

Família síria (Foto: Acnur)

“Podemos destacar como fatores preponderantes para a intensidade com que se desenvolvem essas dinâmicas violentas na região os diversos movimentos de contestação das fronteiras artificiais forjadas por franceses e britânicos, a complexa posição geográfica entre três continentes, a forte dependência de determinados estados de recursos vitais (como a água) de países vizinhos, a criação do estado de Israel em 1948, além de fortes cisões internas próprias à dinâmica politico-religiosa da região”, explicam. “Existe uma complexa gama de fatores sociais, econômicos, culturais, religiosos, políticos e filosóficos, interdependentemente articulados na configuração de um ambiente de profundas instabilidades regionais”.

A população do Oriente Médio é, com toda certeza, a mais afetada por estes conflitos. As vítimas dos ataques terroristas, por exemplo, são em sua ampla maioria muçulmanos locais, não ocidentais. As maiores consequências são os refugiados de guerra, deslocamentos internos e as crises humanitárias, algo que já virou realidade na região. Isto aumenta consideravelmente o número de pessoas que optam por deixar suas casas, sua família, suas raízes, em busca não somente de uma perspectiva melhor, mas de vida, por si só. É nesse momento que as figuras dos imigrantes e refugiados merecem não só atenção como uma diferenciação correta.

“É importante ressaltar que existe uma significativa diferença entre imigrantes e refugiados, sobretudo em termos de Direito Internacional. Além disto, há o grave problema de deslocados internos, que se situa hoje na Nigéria, na Síria e no Iraque”, afirma Natalia Nahas.

Números

“O número total de refugiados sírios na Turquia, Líbano, Iraque, Jordânia, Egito e em outras partes do norte da África é de mais de 4 milhões de pessoas. Pelo menos outros 7,6 milhões de pessoas foram forçadas a deixarem suas casas dentro da Síria”, contextualiza Natalia.

Nos dias de hoje, quase metade da população de 20 milhões da Síria é formada ou por refugiados ou por deslocados internos. O conflito, que já chegou ao seu quinto ano, já matou mais de 220.000 pessoas, de acordo com a ONU. A síria, já palco de batalhas incessantes, mergulhou em uma sangrenta guerra civil em março de 2011, em meio à Primavera Árabe, e o país fragmentou-se entre forças leais ao presidente Bashar al-Assad e grupos insurgentes. 

Siria

Sírios tentando fugir de seu país, conhecido por ser uma grande zona de conflito. (foto: Google)

“O conflito abriu caminho para grupos radicais como a Frente al Nusra e o Estado Islâmico, que controlam atualmente cerca de 50% do território sírio. Potências regionais do golfo e ocidentais possuem responsabilidade sobre esta ascensão. Os sírios contabilizam 34% das pessoas que tentam entrar irregularmente na Europa através do Mediterrâneo em 2015; afegãos e eritreus, 12% cada povo; Somália e Nigéria outros 5% cada uma. No Afeganistão, a população foge do aumento da ingerência do Talibã, enquanto na Eritreia, foge dos altos índices de repressão e da precária qualidade de vida nos campos”, salienta Natalia Nahas.

Papel das Entidades Sociais

As entidades sociais exercem papel fundamental no tratamento desta questão. “Motivadas, em sua maioria, pela luta por direitos civis, direitos sociais, justiça, igualdade, ampliação dos serviços públicos e fim dos regimes ditatoriais, sob forte mobilização, principalmente por parte da população jovem, dos recursos comunicacionais das redes sociais, essas entidades tiveram repercussões específicas em cada contexto, tais como deposições, ampliação de direitos ou mesmo recrudescimento dos regimes opressores”, explicam Saulo e Gabriela.

A atuação desses movimentos não se restringe somente dentro das zonas de conflito, mas também se expande em termos de acolhida e suporte em outros países às pessoas que perdem suas identidades, seu sentido de valores e suas raízes.

“Sua presença é fundamental em contextos de miséria e de dificuldades severas. O ativismo de grupos na Palestina, por exemplo, é crucial para fomentar novas perspectivas políticas, como é o caso do BDS, Badil, Al-Haq e do Stop the Wall. E dentro de Israel também, como o B’T selem, Machsom Watch, Peace Now, Zochrot e os Shministim. A Agência da ONU para Refugiados (Acnur) e a própria Unrwa (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina) atuam significativamente na região. Grupos humanitários como o Movimento Hizmet de Güllen e os Green Helmets, este da Alemanha, também provém assistência”, explica Natalia.

Além disso, existe o papel das Cáritas, tanto nacionais quanto Internationalis, que atuam por meio de arrecadação de fundos, recepção e acolhida de refugiados e imigrantes e criação de projetos que têm como objetivo o auxílio das pessoas que chegam em busca de um novo recomeço. O trabalho da instituição vem como uma medida de alívio crucial e emergencial diante deste cenário.

Michel Roy, secretário geral da Caritas Internationalis, explica o papel das entidades sociais neste fenômeno migratório. “Temos que acolher bem aos nossos irmãos e irmãs refugiados. Não são pessoas que se pode deixar de lado. Temos que acolhê-las o melhor possível. Isto é a assinatura, o símbolo de ser Igreja. São pessoas que sofrem e que têm sofrido muito. A Caritas Internationalis, como rede de organizações-membros, sempre incentiva, encoraja seus membros a acolher as pessoas que sofrem”, afirma ele.

A união de todas as Caritas tem mostrado fundamental importância neste cenário. “A Caritas trabalha desde o início desta guerra. Especialmente se falarmos da Síria e do Iraque. Desde o início trabalhamos com as Cáritas locais, síria e iraquiana, e as Cáritas dos países de entorno para acolher o melhor possível, dar um testemunho forte de amor a estas pessoas que chegam”, salienta Roy.

A solidariedade se estende por fronteiras, independentemente da situação econômica dos países. “A Grécia está passando por uma situação muito difícil. A crise econômica tem afetado muito, mas mesmo assim a Caritas Grécia está acolhendo milhares de refugiados. Eles passam pela Caritas Grécia, Caritas Macedônia, Caritas Sérvia, Caritas Croácia, Caritas Eslovênia, que são os países de trânsito. Depois chegam à Áustria, Alemanha, onde querem ficar, bem como à França, Itália. Muitos cruzaram o Mar Mediterrâneo, pois as Caritas destes países estão muito envolvidas e o papel da confederação é ajudar a coordenar, impulsionar, liderar, para que as Caritas trabalhem juntas”, aponta o secretário geral.

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Refugiados paquistaneses e afegãos são ajudados por médicos (Fonte: Médicos Sem Fronteiras)

“Contudo, estes movimentos são, em certa medida, paliativos, e é vital que os governos nacionais e grandes potências se empenhem politicamente em fomentar estruturas mais democráticas e inclusivas”, reitera Natalia Nahas.

Possíveis soluções

A melhor forma de começar a pensar em uma solução para este cenário é tratar estas pessoas, vítimas de guerra, como seres humanos e não como objetos descartáveis. Para tanto, é preciso uma boa política de acolhimento e soluções inclusivas, de modo que os países para os quais essas pessoas se deslocam observem vantagens e benefícios em acolher imigrantes e refugiados.

“O Brasil é exemplo de como estrangeiros que para cá vieram – não como refugiados, mas em condições de severa dificuldade no início e meados do século XX – contribuíram para a economia local, para a política, para a produção cultural e intelectual. Em boa medida, os mais de 4 milhões de refugiados sírios somente buscam melhores (ou algumas) condições de vida e trabalho. Os países que os acolhem somente têm a ganhar com a interação sociocultural”, ilustra Natalia.

As trocas culturais e a óbvia colaboração em termos de mão-de-obra que se obtêm por meio destas pessoas mostram que a interação com imigrantes e estrangeiros pode sim dar certo, desde que o foco seja a acolhida e não as reações de xenofobia e islamofobia que ainda existem.

“O aumento da xenofobia (preconceito contra estrangeiros) se torna combustível para precarizar ainda mais a situação do imigrante. Para além de direitos trabalhistas, a própria noção de direitos humanos passa a encontrar dificuldade em protegê-los em algumas situações”, explica Gabriela Rodrigues.

Para exemplificar as principais formas de combate ao preconceito contra estes povos, Saulo e Gabriela separam duas formas de solução.

“A primeira é repensar a forma de intervenção unilateral que vem sendo adotada na resolução desses conflitos. A pouca autonomia que esses povos vêm recebendo para pensar suas próprias lógicas tem gerado justamente o caminho inverso do proposto por essas intervenções: presenciamos um estopim de novos conflitos. Concomitante a isso, o ônus gerado por essas intervenções é relegado unicamente aos povos diretamente afetados pelos conflitos, sendo eximida a responsabilidade de outras nações que interferiram ativamente no processo de instauração do conflito. A segunda solução, de magnitude muito maior que a primeira, é repensar o modelo geopolítico que estamos vivendo. Uma forma de organizar o mundo que trouxesse o foco sobre o direito à vida humana e não-humana torna-se urgente. A caça aos lucros é incapaz de coexistir com a manutenção da vida”, enfatizam. 

Tudo se resume a enxergar o refugiado ou imigrante como pessoa e a disponibilizar para ele o acesso aos direitos humanos de modo que possa se sentir acolhido por estrangeiros e ser, novamente, parte de uma comunidade, de um todo. A humanidade sempre foi e continua sendo feita de interações entre povos, sejam elas resultados ou não de conflitos. Foi esta interação que permitiu nossa evolução tecnológica e científica e é a ela que devemos recorrer nestes tempos de guerra.

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Foto: Acnur

 

Por Tanara Adriano de Oliveira / Assessora Externa da Cáritas Brasileira

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Comentários

Debora:

Muito interessante, mas acho que faltaram referências bibliográficas.

Mônica:

Gostei da matéria, porém foram vários assuntos para um só texto. Façam um desdobramento. Deus abençoe.

Angelica Kanneberg Alencar:

Devia Ter Mais Detalhes

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