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Colniza (MT): Trabalhador Rural é assassinado em conflito por terra e outros ficam feridos gravemente

07 de janeiro de 2019

Foto aérea da cidade de Colniza (MT)  | Foto: Divulgação

Essa é a primeira morte registrada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) em 2019 por conflitos agrários. O ataque deixou ainda nove feridos, sendo três em estado grave.

A reportagem foi publicada por Comissão Pastoral da Terra – CPT, 05-01-2019.

Eliseu Queres, 38 anos | Foto: Arquivo pessoal

O trabalhador rural identificado até o momento como Eliseu Queres, foi assassinado na madrugada do dia 5, dentro da Fazenda Agropecuária Bauru, conhecida como Fazenda Magali, no município de Colniza, Mato Grosso. O Conflito deixou outras nove pessoas feridas, três delas em estado grave.

Esse é o primeiro assassinato registrado pela CPT, em 2019, por conflitos no Campo. Uma tragédia anunciada e denunciada pelo Fórum de Direitos Humanos e da Terra de Mato Grosso (FDHT-MT) e pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) no estado, no dia 1 de novembro de 2018. Em nota as entidades alertavam para o eminente conflito na região onde 200 famílias reivindicam o direito à terra e viviam sob a mira de cerca de 30 pistoleiros.

“Das quase 200 famílias que lá estão sob a mira dos pistoleiros na Fazenda Agropecuária Bauru, algumas são posseiras, outras compraram o direito de estar na terra, e já moram em seus lotes há algum tempo. Produzem e criam animais. São pessoas que apostaram no sonho de construir uma vida com o suor do trabalho. Não podemos deixar que mais um massacre aconteça, que mais uma violência aconteça a estas pessoas que já nasceram vulneráveis e que, por sua condição de pobreza, já nasceram em estado de exceção.” Alertaram as entidades em nota.

De acordo com testemunhas do conflito que ocorreu na madrugada, o ataque aconteceu no momento em que algumas pessoas que ocupam a área da fazenda pegavam água na beira do rio Traíra, que é próximo ao acampamento onde estão as famílias. A CPT e o FDHT-MT estão acompanhando o caso que indica que pode agravar ainda mais os conflitos na região.

A CPT divulgou os nomes das vítimas:

Eliseu Queres – (morto)
Milton Jose Da Silva (Gravemente ferido)
Moises Ferreira (Gravemente ferido)
Valmir Nunes Januario (Gravemente ferido)
Antonio Jose Maia Silva
Manoel Ferreira Barbosa
Marcos Martins Do Prado
Nalbes Apolinario
Tahik Bruno Oliveira
Tiago Alves Lopes

Conflitos
Nos últimos três anos a violência no campo aumentou drasticamente no Brasil, após o golpe político-parlamentar-midiático de 2016, com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. A cada cinco dias uma pessoa é assassinada por conflitos agrários, segundo relatório Conflitos no Campo, publicado pela CPT. Em 2017, o número de assassinatos registrados foi o maior, desde 2003, com 71 trabalhadores e trabalhadoras rurais mortos.

Colniza
A Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) divulgou um estudo, em 2004, que apontava Colniza como a cidade mais violenta do Brasil. A cidade, que fica distante 1,2 mil quilômetros de Cuiabá, chegou a registrar 165,3 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes – o mais alto índice de homicídios do Brasil. O motivo das mortes? Conflitos gerados por questões agrárias, exploração de madeira e minérios.

No dia 19 de abril de 2017, nove trabalhadores rurais foram brutalmente assassinados no Projeto de Assentamento Taquaruçu do Norte, em Colniza. Muitos foram surpreendidos enquanto trabalhavam na terra ou dentro de seus barracos. Foram mortos a tiros e por golpes de facão. De acordo com a perícia houve tortura. Vários corpos estavam amarrados e dois foram degolados.

Os assassinatos marcaram o início de uma série de massacres no campo em 2017. Dos 71 assassinatos registrados pela CPT, em 2017, 28 ocorreram em massacres.

Nota dos Bispo Diocesano de Juína, dom Neri José Tondello, sobre a tragédia

“A Igreja não sossega enquanto a paz, fruto da justiça não se encontrar com os filhos da terra. Repudiamos todo tipo de violência de irmão que mata outro irmão”, escreve dom Neri José Tondello, em nota publicada pela Diocese de Juína, 05-01-2019.

Eis a nota.
“Do solo está clamando por mim a voz do sangue do teu irmão. Por isso, agora serás amaldiçoado pelo próprio solo que engoliu o sangue de teu irmão que tu derramaste”. (Gn 4, 10 – 11)

É com muita tristeza que anuncio mais derramamento de sangue na Região Noroeste de Mato Grosso, no município de Colniza. O fato aconteceu na manhã de hoje, sábado, dia 05 de janeiro de 2019, em torno das 7 horas da manhã. Mortos e feridos, além de outros envolvidos no episódio mancham nossa mãe terra de sangue.

Passa ano e outro ano inicia, e os problemas que envolvem a terra continuam com desfecho da pior forma possível. Até quando vamos precisar de mortos para solucionar os problemas do campo? Parecemos filhos sem Pátria e/ou filhos de ninguém!

A Igreja não sossega enquanto a paz, fruto da justiça não se encontrar com os filhos da terra. Repudiamos todo tipo de violência de irmão que mata outro irmão. A resistência em busca da verdade deve prosseguir!

A apuração dos fatos e responsabilização dos envolvidos é o que se espera. Que a justiça dê conta de mais um fato trazendo medo e morte.

“Felizes os mansos, porque receberão a terra em herança”. (Mt 5,5).

Dom Neri José Tondello
Bispo Diocesano de Juína

MAGRE BRASIL

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