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Cáritas Brasileira realiza entrega do V Prêmio Odair Firmino de Solidariedade

13 de novembro de 2018

Solenidade de entrega do V Prêmio Odair Firmino de Solidariedade, em Brasília (DF)

Nesta segunda-feira, 12 de novembro de 2018, quando a Cáritas Brasileira celebrou os 62 anos de fundação, em meio II Jornada Mundial dos Pobres, celebrada entre os dias 11 e 18 de novembro de 2018, foi realizada a cerimônia de entrega do V Prêmio Odair Firmino de Solidariedade, na sede da Conferência Nacional do Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília (DF).   

O Prêmio deste ano teve como objetivo estimular e fortalecer ações de grupos comunitários que atuam no fortalecimento da solidariedade e da esperança na construção da cultura da paz. O tema foi: A cultura da paz para a superação da violência, em consonância com a Campanha da Fraternidade 2018, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que apresenta o tema Fraternidade e superação da violência

Conheça a história dos Projetos vencedores deste ano.

 

Resistência e empoderamento

A geração de renda a partir da Economia Popular Solidária traz novas perspectivas para mulheres do interior do estado de Santa Catarina

 

Entre as montanhas da Serra Catarinense, está localizada a comunidade do Divino Espírito Santo, município de Rio Rufino, em Santa Catarina, a 195 quilômetros da capital Florianópolis. Conhecida como capital nacional do vime, material flexível que no seu trançado dá forma a cestos e móveis, Rio Rufino também é terra de empoderamento feminino, luta para uma vivência solidária e do bem viver.

 

Na terra onde se usa da flexibilidade da vara da vimeira para fazer artesanato e gerar renda, mulheres de várias idades também se flexibilizam entre o preconceito e a convicção do protagonismo que geram numa pequena cozinha, nos fundos do salão de festas da Igreja Católica, afastada alguns quilômetros da maior concentração de casas, na comunidade Divino Espírito Santo. Elas são as Morenas do Divino.

 

– Por que Morenas do Divino?

– Nossa cor já diz tudo, disse timidamente Rita de Cássia Lima de Oliveira, 48 anos e nascida na comunidade com princípios quilombolas, que logo depois contou que os maridos, trabalhadores do campo, são conhecidos como Morenos do Divino pelos produtores rurais da região que necessitam de trabalhos braçais em contratos durante os períodos de colheitas. Não haveria outro nome mais representativo para o empreendimento.

 

Tudo começou através de uma atividade de inserção na sociedade da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP), da Universidade do Planalto Serrano (UNIPLAC), e do trabalho de conclusão do curso de especialização em Desenvolvimento Regional Sustentável, também disponibilizado pela UNIPLAC e produzido pela aluna Sonia Cardoso Oselame.

 

Alunos e professores da Universidade contaram com a mobilização de cerca de 20 mulheres em um encontro na comunidade na tentativa de encontrar uma forma das Morenas se organizarem e de forma solidária colaborar com a renda familiar. O principal foco desta reunião foi a descoberta de uma atividade em comum entre as mulheres presentes. Produtos panificados e biscoitos artesanais foi o escolhido por elas.

– Das vinte, hoje estamos em dez mulheres, dez guerreiras que conciliam família e trabalho, disse Vera Lúcia da Silva, 38 anos, contando que depois que iniciaram o empreendimento de economia solidária não precisam mais acompanhar os maridos nas lavouras de plantações de fumo da região. 

 

– E os maridos apoiam?

– No início eles achavam que era loucura nossa, mas depois perceberam que estávamos mais unidas e colaborando com o nosso pouco na renda familiar, disse Rita de Cássia com o olhar confiante recebendo a confirmação de Vera Lúcia.

– A gente gostaria que estivéssemos todas reunidas aqui para contarmos juntas a nossa história, mas nos dividimos entre fazer os produtos e ir para as feiras em Rio Rufino (SC) e Lages (SC), relatou Vera Lúcia explicando a ausência das outras companheiras.

A venda dos produtos das Morenas do Divino são realizadas nas feiras da região, entrega em domicílio e através das redes sociais. Na cozinha de produção é proibido a utilização de aparelhos de telefonia móvel, apenas o celular da Rita de Cássia permanece ativo e com sinal de alerta diferenciado para atender aos pedidos que chegam em um grupo de conversa em um aplicativo de mensagens instantâneas composto por clientes do empreendimento.

 

Novos caminhos – Hoje as Morenas do Divino possuem logomarca própria, uniforme, autorização da prefeitura municipal para comercialização de produtos e clientela fixa. Já foram capa de jornais da região como empreendimento inovador e tem o desejo de ter uma sede própria.

 

Como a atual cozinha pertence à comunidade Católica, para permanecerem ali, as Morenas idealizaram um projeto que rompeu um paradigma histórico:

– Quem definiria a nossa permanência na cozinha do salão era o Conselho Pastoral da Comunidade. Como era inserta a permanência aqui, pela primeira vez, reunimos os Morenos e Morenas, montamos uma chapa e agora somos nós da coordenação da comunidade. Isso nunca tinha acontecido, contou Rita de Cássia.

 

Atualmente as Morenas do Divino, que no início se reuniam três vezes por semana, se encontram todos os dias na cozinha da comunidade. Revezam-se nas vendas e no cuidado com o horário de buscar os filhos na pequena creche ou na escola de ensino fundamental da vila.

 

No final do mês, todas as contas do mercado são pagas e o que sobra é dividido entre as empreendedoras de acordo com o rendimento e presença de cada uma. A comunidade também ganha. Parte dos produtos como os ovos utilizados na produção vem da própria comunidade do Divino Espírito Santo.

 

No meio da conversa, Rita de Cássia interrompe, – Chegou a conta de energia elétrica, somos nós que assumimos essa conta como contra partida da utilização da cozinha. Veio cem reais mais cara. Esse mês vamos ter que rodar a baiana para pagar.

Olhou de novo para a conta soltou um sorriso com jeito de quem queria dizer que seria fácil.

As Morenas do Divino são a certeza de que sempre é tempo de inovar, aprender novos caminhos e que a geração de renda traz empoderamento. O empreendimento de economia solidária agora gera líderes, renda. As mãos que eram treinadas para a flexibilidade do vime, do trabalho com fumo e outras plantações, agora amassam pães, biscoitos, bolos, produzem vida e esperança.

 

Por Franklin Machado, Assessoria de Comunicação do Regional Sul 4 da CNBB

 

 

 

Arte, circo e cidadania

 

Circo Laheto favorece formação ética, estética e política a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade socioeconômica

 

Sob a lona azul, em detalhes amarelo e milhares de estrelas brancas, em círculo, lá estão elas, 146 crianças e adolescentes reunidas para dialogar sobre ética, estética e política, e para aprender a cuidar de si, do outro e a cuidar da vida. E esse aprendizado se dá, em especial, em assembleias, rodas de conversas e por meio das atividades da arte circense – pernas-de-pau, malabares, monociclo, diabolô, diablete, palhaço, tecido acrobático e trapézio, lira entre outros –.  O teatro também faz parte da aprendizagem. As oficinas de matemática, atividades de incentivo à leitura e produção de textos, brincadeiras e jogos, também estão no ciclo de atividades para as crianças e adolescentes que participam do Projeto Arte, Circo e Cidadania, da Escola de Circo Laheto. A ação é coordenada por arte-educadores, em sua maioria, formados pela proporia escola, em seus 25 anos de atuação, na cidade de Goiânia (GO).

 

O Palhaço Maneco Maracá, personagem de Valdemir de Souza, um dos fundadores da Escola, conta como vem sendo cultivado a parceria escola, comunidade e crianças: “O circo Laheto estabelece um diálogo democrático com a escola, com as crianças, com a comunidade e também com a própria equipe de trabalho do Laheto”. Segundo ele, o diálogo é sempre pautado no respeito, na ética. “É uma escuta que fomos desenvolvendo, uma capacidade de ouvir a comunidade, as suas reivindicações”, revela.

 

Valdemir ressalta a interação entre as crianças, os arte-educadores. “A gente trabalha com 130 crianças e 16 adolescentes e ai tem uns elementos muito fortes, as crianças vêm pro circo com muito prazer, elas cuidam do espaço e têm uma interlocução fortíssima com os arte-educadores”, observa. Ele lembra que boa parte dos arte-educadores cresceram, participaram dos projetos da escola. “Hoje, alguns já concluíram o ensino superior, outros ainda estão em andamento, essa opção de jovens oriundos do projeto foi uma escolha que deu certo. Com isso, eles têm uma capacidade enorme de dialogar, de estabelecer diálogo com as crianças e intermediar as relações entre elas” expõe.  

 

Segundo Valdemir as crianças criam uma relação saudável uns com os outros e que há poucos conflitos entre o grupo. E diante desse trabalho ele afirma sentir-se um menino, cheio de vida e cheio de energia, entusiasmado para seguir em frente. E aponta que trabalhar em Projeto Social gera muita dificuldade, mas que os resultados alcançados no projeto, motivam. “Quando a gente trabalha com vidas e percebe um processo de formação dos jovens, de inclusão, fortalece muito. Nós temos varias experiências marcantes ao longo desses 25 anos de atuação. Este ano foi bem especial, a gente trabalhou com crianças que sofreram violência sexual por parte de parentes, dentro de casa. Fomos obrigados a interferir. Crianças violentadas pela vó, padrasto”, expõe.

 

Mas Valdemir lembra que há muitas histórias de superação, dentre elas a de Danilo. “O Danilo Lúcio chegou ao circo, era um menino com o cabelo amarelo pálido, até os dentes eram amarelos, uma criança totalmente desnutrida, filho de um casal de catadores de material reciclado. Eles moravam num cortiço, numa casa assim, desprovida de energia elétrica e saneamento básico. Essa criança iniciou suas atividades no circo e foi crescendo e se responsabilizando por seu crescimento, junto com a gente. Ele foi pra Escola Nacional de Circo do Rio de Janeiro, ficou lá uma temporada, voltou para o circo e hoje está num circo em Campo Mourão, no Paraná e é uma liderança. Um ser humano consciente. Isso estimula a gente a continuar e dizer que vale a pena”, descreve.

 

O nascimento do Laheto – O Grupo Laheto nasceu em 1980 a partir de um trabalho sociocultural realizado com indígenas e posseiros da região do Baixo Araguaia, no Mato Grosso. O grupo se articulava montando peças teatrais que contavam as experiências vividas pelo povo daquela região, fato que originou o Projeto Araguaia Pão & Circo, cujo objetivo era identificar e fomentar a arte popular através da capacitação de agentes e núcleos culturais. Em 1994, Valdemir de Souza, mudou-se para Goiânia e, com a sua companheira, Seluta Rodrigues, fundaram o Grupo de Teatro Laheto, com o objetivo de fazer estudos, pesquisas, montagens, apresentação de espetáculos teatrais e circenses na capital e cidades do interior de Goiás. A partir de 1996, o Grupo focalizou em estudos, pesquisas e trabalhos nas políticas de atendimento às crianças e adolescentes de famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Em seguida, investiu na formação e capacitação de artistas circenses e educadores para formar profissionais habilitados em consolidar e multiplicar a proposta educacional do grupo: proporcionar uma educação integrada por meio da arte circense. Nascia aí o Projeto Arte, Circo e Cidadania. No início de 2000, o Grupo inaugurou a Escola de Circo Laheto. Desde então, as atividades passaram a ser direcionadas ao atendimento às crianças e adolescentes.

 

Por Osnilda Lima – Caritas Brasileira Secretariado Nacional , com informações do Circo Laheto.

 

 

 

Vidas transformadas

 

Rede de mulheres no Pará mobiliza 20 grupos, estabelece projetos de cooperação, Economia Popular Solidária e promove liderança feminina

 

“Sou Lianete Carvalho, tenho 47 anos, integro o Grupo Pôr do Sol, da Ilha de Mosqueiro, localizada no distrito de Belém, no Pará. Minha vida desde criança sempre foi de muitas batalhas, dores e tristezas. Mas em 2014, decidi mudar, e as atividades da Rede de Cooperação Mãos Solidárias (Recomsol) me ajudaram a transformar minha vida. Hoje, coordeno um grupo que ajuda outras companheiras a superar as dificuldades, à violência, além de gerar trabalho e renda”.

 

É com este depoimento que contamos a história da Rede de Cooperação Mãos Solidárias (Recomsol), uma organização autônoma plural, apartidária, sem discriminação de gênero, raça, cor, etnia e ou religião, que desde 2015 tem transformado vidas com a finalidade de articular, organizar, e fomentar grupos de mulheres para a cooperação solidária.

 

A Rede surgiu a partir do desejo de mulheres integrantes de grupos de Economia Popular Solidária (EPS), apoiados pelo Centro Social Irmã Joselha da Silva, coordenado pela Congregação das Irmãs Filhas do Amor Divino, com articulação da irmã Edilamar Pimenta, e Rosane Gomes, coordenadoras na Rede.

 

Atualmente, 139 mulheres e 13 homens integram a Rede espalhada em 20 grupos localizados nas cidades de Belém, Ananindeua, Benevides, Barcarena, Tomé-Açu e Curralinho, que tem em sua história uma proposta de vivência baseada em práticas inclusivas, justas e sustentáveis, agregadas a valores socioambientais para a preservação da identidade, educação, cultura, e com os princípios de referência da EPS e da agroecologia.

 

A Rede também tem como norte de missão a superação da pobreza e da violência, principalmente contra a mulher, com o objetivo de promoção do Bem Viver das comunidades, gerando assim, justiça social, respeito ao Meio Ambiente, diversidade cultural, igualdade de gênero, e educação.

 

Troca de Saberes – O dia a dia dos grupos que compõem a Rede é organizado em atividades de formação profissional pessoal e coletiva, nas linhas de assessoria técnica, de exercício da práxis, de oficinas qualificadas e temáticas com troca de saberes e experiências para a promoção de autonomia, fortalecimento da geração de trabalho e renda, e principalmente o empoderamento e emancipação das mulheres. “A nossa história mostra o quanto é importante a capacitação de lideranças, pois são elas que aliadas a outras atividades proporcionam  empoderamento e fortalecimento das mulheres.  Seja as envolvidas em nossa Rede, na comunidade eclesial ou na sociedade. Entendemos que as nossas ações contribuem para o desenvolvimento social e melhoria na qualidade de vida daquelas que estão à margem da sociedade e em situação de vulnerabilidade social. E para nós é sinal que estamos trilhando o caminho certo”, comenta irmã Edilamar Pimenta, coordenadora da Rede.

 

A história de Lianete é parecida com centenas de outras histórias das mulheres que participam de um dos grupos do Recomsol.  Desde criança teve uma vida marcada por batalhas. Filha de pescador, mãe costureira e merendeira na escola, aos 10 anos após desmaios, dores e inúmeros diagnósticos médicos em sua primeira batalha travou uma luta contra cistos e hérnias, e após quatro cirurgias e paradas nos estudos, teve a perda de um ovário.

 

Seguiu e levou uma vida feliz, até que aos 25 anos casou, grávida de seis meses, mas  o relacionamento se baseava em violência e desrespeito, o que a fez  por muitos anos sofrer calada. Perdeu a mãe, seu porto seguro, e decidiu terminar o relacionamento e criar o filho sozinha. Por isso, pagou o preço dos julgamentos alheios.  Como conselho de mãe fica para a vida toda: “sorria sempre e jamais demonstre sua dor e tristeza”, assim ela fez.

 

Em 2005 convidada a ajudar em uma associação, cercada de receios e medos, recuou. Mas em 2014 decidiu voltar, e frequentar a associação e então tudo mudou. Envolveu-se, e começou a participar das muitas ações, e a ocupar-se. Daí em diante, por meio da Recomsol, conheceu a Rede e a possibilidade de criar seu próprio grupo, que assim como ela, era repleto de mulheres com histórias semelhantes.

 

Atualmente Lianete coordena o Grupo Pôr do Sol, que em suas atividades ajuda mulheres na superação das dificuldades, da violência, e na geração trabalho e renda, emancipação e dignidade. E assim tudo se transformou, tudo mudou, Lianete venceu algumas batalhas, outras virão, mas o sorriso estará sempre em seu rosto.

 

Por Fabiana Francelino – Cáritas Diocesana de Pesqueira

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