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Artigo: Feminização das Migrações na perspectiva da Campanha Compartilhe a Viagem

08 de março de 2018

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Em 1984, a pesquisadora dos estudos migratórios Mirjana Morokvasic publicou um estudo intitulado Bird sof passage are also women, ou seja, pássaros de passagem também são mulheres. Considerado um dos primeiros estudos que problematizam a participação das mulheres nas migrações internas e internacionais, a referida autora observa que “a partir da década de 1980, nos países do norte da Europa, o número de mulheres migrantes superava o dos homens, obrigando os estudos migratórios a considerar a variável de gênero nas abordagens das migrações internacionais” (MOROKIVASIC, 1984: 886).

Redes de exploração

No atual contexto internacional, as migrações estão estreitamente relacionadas com o reordenamento internacional do trabalho. Mas, não somente com este fato. Há que se reconhecer que diversos são os fatores que empurram multidões inteiras para a migração e que mais da metade dos migrantes não migra por vontade própria. São forçados ao deslocamento pelas guerras, conflitos internos ou internacionais, crise econômicas, políticas ou humanitárias em países castigados por embargos econômicos, conflitos agrários e socioambientais, violência, eventos ambientais e climáticos, sobreposição de grandes projetos econômicos em terras indígenas, quilombolas ou de outros grupos tradicionais. Estes e muitos outros fatores corroboram com as migrações.

Sensibilização e solidariedade

Nos itinerários migratórios, uma característica importante em todos os deslocamentos é a esperança. Todos os migrantes são portadores da esperança. Sonham com dias melhores e se deslocam em busca de “melhoras”. Essa motivação é o que faz os migrantes assumirem os riscos das migrações que não são poucos. Os deslocamentos submetem os migrantes a situações de vulnerabilidade. Podem ser vítimas da exploração, do engano, do contrabando, do trabalho escravo e até mesmo do tráfico humano que abrange principalmente as mulheres. Cada vez mais aumentam as redes de exploração dos migrantes em situação de deslocamento. Mas, aumentam também os gestos de acolhida e solidariedade aos migrantes, de maneira especial, movidos por iniciativas como a campanha “Compartilhe a viagem” da Cáritas Internacional, lançada pelo Papa Francisco, em setembro de 2017, com o objetivo de “promover a acolhida aos migrantes e refugiados em todo o mundo”. A campanha representa um “caminho para sensibilização e solidariedade” e vem ganhando a adesão de importantes instituições nacionais e internacionais como o Serviço Pastoral dos Migrantes, formando redes de acolhida e atenção aos migrantes.

 Mulheres migrantes

Outra característica das migrações na atualidade é o aumento das mulheres nos fluxos migratórios. Como afirma Mirjana Morokvasic (1984) elas sempre migraram, mas, nem sempre foram mensuradas nas estatísticas migratórias. Reconhecer a participação das mulheres nas diversas dinâmicas migratórias nos permite dar nome, rosto e gênero às migrações. Este reconhecimento tem uma influência importante na incidência de políticas públicas para os migrantes e nas políticas migratórias nacionais e internacionais.

Os estudos de Mirjana Morokvasic (1984) e Oliveira (2016) apontam o crescimento da feminização das migrações em escala mundial. Em algumas situações de deslocamentos elas representam a maioria dos migrantes e são o alvo preferido das redes de exploração dos migrantes nas rodas migratórias. As histórias de vida de muitas mulheres migrantes recolhidas em nossas pesquisas de campo entre 2010 e até o momento atual, revelam alguns dilemas e esperanças nas experiências migratórias. 

Trajetórias femininas

Milena, uma venezuelana de 23 anos, deixou o curso de direito na Venezuela para tentar a vida em Manaus. Ela conta que “saiu de Puerto Ordaz no início de dezembro com sua irmã, também estudante do curso de educação da Universidad Católica Andrez Bello”. Não tinham mais condições de continuar os estudos e buscaram Manaus para trabalhar e estudar. Sem emprego e ainda sem documentos, as duas estão nos semáforos da cidade fazendo malabarismos para ganhar algumas moedas dos motoristas (Pesquisa de Campo, 2018).

Sunaya, 24 anos, também saiu da Venezuela, do Delta Orinoco no início de 2016 com três filhos. O quarto filho nasceu no mês de julho em Boa Vista, Roraima. Já providenciou o pedido de permanência no Brasil com base em prole brasileira, conforme garante a nova Lei Migratória. Passou por Pacaraima, na fronteira, viveu alguns meses em Boa Vista e viajou para Manaus. Ainda não encontrou trabalho. Vive da “coleta nos semáforos”. Explica que migrou, junto com “seu povo Warao porque envenenaram rio Orinoco. As mineradoras mataram os peixes e os animais e já não podíamos mais circular em nossa terra para coletar os frutos da floresta” (Pesquisa de Campo, 2018). Este é um caso evidente de deslocamento compulsório, quando a migração é um ato forçado.

Lourdes, 34 anos, está de volta depois de morar dez anos na Europa. “Aos 22 anos, recém-formada em educação física, por influência de uma amiga, fui morar na Itália para trabalhar como cuidadora de um idoso. Depois de três meses fiquei sem trabalho e com a dívida da passagem ainda em aberto. Fui parar na prostituição e conheci os piores anos da minha vida. Graças ao apoio de pessoas boas que conheci na Alemanha, consegui voltar para Rondônia e recomeçar minha vida em 2016” (Pesquisa de Campo, 2017).

Essas e muitas outras histórias de vida confirmam a feminização das migrações com deslocamentos de mulheres em contextos específicos, muitas vezes marcados por guerras, epidemias, fome, catástrofes naturais ou crises econômicas e políticas. Nessas conjunturas, quase sempre é a mulher, na condição de mãe, filha, irmã ou esposa, que “encabeça” o deslocamento mediante situações de emergência que colocam em risco a vida da família. O reconhecimento do papel desempenhado pela mulher em contextos migratórios contribui para o reconhecimento dos inúmeros gestos de acolhida de pessoas que também se colocam à caminho “compartilhando a viagem” com os migrantes.

Na perspectiva da feminização das migrações, a campanha “Compartilhe a Viagem” desafia a sociedade a conjugar os verbos acolher, compartilhar, cuidar e integrar os migrantes e refugiados assumindo gestos concretos que implicam em abrigar e amparar quem está em situação de vulnerabilidade e envolver-se com a causa dos migrantes e refugiados, especialmente as mulheres, ajudando-as a enfrentar os riscos e desafios das migrações.

Por  Márcia Maria de Oliveira

Referências

MOROKIVASIC, Mirjana. Birds of Passage are also women. Internacional Migration Review. Vol. XVIII number 4, 1984.Winter: 886-907.

OLIVEIRA, Márcia Maria de. Dinâmicas migratórias na Amazônia contemporânea.  São Carlos: Scienza, 2016.    

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