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Anseios Difusos, artigo Dom Demétrio Valentini

05 de setembro de 2014

Paira no ar um difuso descontentamento, uma insatisfação indefinida, um  generalizado desejo de mudança.

A situação atual encontra um denominador comum, não em propostas objetivas no cenário político e econômico, mas no clima subjetivo, que faz multidões participarem de eventos onde os objetivos não são formulados nem expressos de maneira clara e consistente.

A força da emoção subjetiva parece dispensar a definição das necessárias  transformações a serem feitas.

Em tempos de campanha eleitoral, este sentimento pode levar a opções que satisfazem o desejo de mudanças, mas que levam consigo as contradições subjacentes, que não tardariam em acumular impasses, que amargurariam decepções tardias.

O outro lado desta moeda, que está sendo empenhada com ênfase nesta Semana da Pátria, é o pouco entusiasmo com que se encaram propostas concretas e específicas, elaboradas com muita dificuldade de consensos mínimos.

São várias propostas em andamento, que mereceriam, certamente, mais atenção e poderiam suscitar debates mais objetivos, em vista de municiar planos concretos de governo.

Existe em andamento uma “iniciativa popular de lei” sobre a Reforma Política, fruto de uma “coalizão” de entidades , ente as quais se destacam a CNBB e OAB, com sua força emblemática. Seria o caso de aproveitar o clima da Semana da Pátria para uma ampla difusão da proposta, e de adesão a ela por meio de assinaturas dos eleitores.  Mas, tanto o debate, como o incentivo para a coleta de assinaturas, não correspondem à importância da proposta.

Parece que o amplo desejo de mudança não se satisfaz com a prosaica elaboração de uma lei.

E assim com as outras iniciativas, de resto muito generosas, que estão sendo realizadas neste ano por ocasião da Semana da Pátria.

Entre elas, destaca-se a realização de um plebiscito popular, não oficial, propondo a convocação de uma assembleia constituinte soberana e específica para realizar a Reforma Política.  Esta iniciativa, se contasse com uma entusiasta adesão dos eleitores, poderia deixar o caminho aberto para que finalmente, neste próximo mandato, fosse feita esta reforma que vem patinando há décadas.  Mas, cadê o entusiasmo?  Parece mais cômodo deixar que os outros façam o que faz parte de nossos desejos. Mas será que farão?

No próprio Sete de Setembro, continuam duas iniciativas tradicionais, muito vinculadas ao Santuário de Aparecida, que são a Romaria dos Trabalhadores, e o Grito dos Excluídos.

Os lemas destas duas iniciativas, também eles, se coadunam mais com o generoso anseio de mudanças, do que com a elaboração concreta de propostas específicas. O lema do Grito parece narrativo, e tenta se vincular com manifestações já ocorridas: “ocupar ruas e praças por liberdade e direitos”.  E o lema da Romaria dos Trabalhadores: “Mãe Negra Aparecida padroeira deste chão, o povo trabalhador não aceita escravidão”.

Diante do difuso desejo de mudanças, fica o desafio de discernir as opções que o tornam viável, adequado e efetivo. 

Temos o voto para expressar nossa vontade.

por Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales (SP).

      

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