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À memória e legado espiritual de Dom Oscar Romero, patrono da confederação Cáritas

24 de março de 2017
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Nesta sexta-feira, dia 24 de março, completam-se 37 anos do martírio de Dom Oscar Romero, assassinado enquanto celebrava a eucaristia na cidade de San Salvador, em 1980. O autor do crime foi um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado na Escola das Américas. Esta, um órgão do Departamento de Defesa dos Estados Unidos responsável pela formação das forças de repressão que atuaram em vários dos regimes de ditadura militar colocados em marcha na América Latina na segunda metade de século XX.

Oscar Romero era então arcebispo de San Salvador e, na véspera de seu assassinato, havia feito um forte pronunciamento pedindo pelo fim dos conflitos em El Salvador. O país recém sofrera um golpe militar. O governo era apoiado pelos Estados Unidos, temerosos de ver se repetir ali uma nova Revolução Cubana – por isso, teriam repassado 7 bilhões de dólares às forças governamentais e paramilitares ao longo da guerra civil que atingiu El Salvador. ”Em nome de Deus e desse povo sofredor, cujos lamentos sobem ao céu todos os dias, peço-lhes, suplico-lhes, ordeno-lhes: cessem a repressão”, foi o que disse Dom Oscar Romero na véspera de seu assassinato.

Neste 24 de março, a confederação Cáritas faz memória de seu patrono e lembra daqueles por quem Oscar Romero dedicou a vida: as populações pobres, colocadas à margem da sociedade, excluídas da divisão da riqueza que é produzida pelo conjunto de trabalhadores e trabalhadoras, do campo e da cidade. Neste momento pelo qual passa o Brasil, de gravíssimas ameaças aos direitos conquistados pela população, fazer memória dos mártires fortalece o ânimo para as duras lutas que virão e alimenta a esperança. Como afirma a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em nota divulgada nesta quinta-feira, dia 23 de março: “Os direitos sociais no Brasil foram conquistados com intensa participação democrática; qualquer ameaça a eles merece imediato repúdio”. 

Em memória ao legado deixado por Oscar Romero, portanto, a Cáritas Brasileira reproduz abaixo uma entrevista feita pela Caritas Internationalis com monsenhor Gregorio Rosa Chávez, arcebispo auxiliar de San Salvador e presidente da Cáritas El Salvador, que esteve ao lado do mártir em sua jornada – na foto publicada nesta página, ambos estão caminhando em direção à catedral de San Miguel, em 1970. “A beatificação de Monsenhor [Oscar Romero] abriu os olhos de muitos, inclusive de pessoas poderosas que fizeram festa no dia de sua morte. (…) Muita dessa gente tem pedido perdão em confissão e diante da tumba do venerado mártir. É o que eu chamo de um verdadeiro ‘terremoto espiritual’ “, diz monsenhor Gregorio. Segue a entrevista:

CÁRITAS  Como conheceu Monsenhor Romero?

MONSENHOR GREGORIO ROSA CHÁVEZ – Monsenhor Romero e eu somos oriundos da mesma diocese, a diocese de San Miguel. Ele ordenou sacerdote em 1942, no mesmo ano em que eu nasci. Eu o conheci na cidade de San Miguel, onde ele era o encarregado da catedral ainda em construção. Eu tinha então 14 anos. Com o passar do tempo, nos tornamos muito amigos e tive o privilégio de estar ao seu lado nos momentos mais difíceis do ministério dele como arcebispo de San Salvador. Ele chegou a dizer em seu diário que me considerava “como amigo que lo ha sido desde tanto tiempo y muy de fondo” (“como um amigo de muito tempo, e cuja amizade era muito profunda” – Diario, 18 de maio de 1979).

CÁRITAS  Que coisas no aspecto solidário fez ou disse Oscar Romero que mais tocaram as pessoas em El Salvador?

MONSENHOR GREGORIO – Monsenhor Romero criticou em uma célebre homilia aos “cristianos de misa dominical y de semanas injustas” (“cristãos de missas aos domingos, e de injustiças na semana”). Ele queria cristãos coerentes, com grande sentido social. E ele foi um modelo do que predicava. Seus colaboradores próximos se preocupavam com o fato de que, com sua política de caridade para com os pobres, as finanças da paróquia estavam com frequência no vermelho. Sendo sacerdote em San Miguel, vários o reprovavam por dar dinheiro a gente pobre que facilmente o ia usar para emborrachar-se (embriagar-se). Não esqueço a resposta que nos deu: “Prefiero equivocarme por dar una ayuda a quien no lo necesita, que, por estar dudando, negársela a quien sí lo necesita” (“Prefiro equivocar-me por dar uma ajuda a quem não a necessita do que, por hesitar, negá-la a quem de fato dela precisa”). Sem dúvida, como arcebispo, ele mostrou claramente que devemos ultrapassar os limites do mero assistencialismo; temos que fomentar a promoção humana e também agir para que se formulem políticas adequadas, de forma que se consiga incidir nas grandes decisões que afetam aos pobres. As pessoas valorizaram seu espírito de pobreza, simplicidade de vida e sua profunda solidariedade.

CÁRITAS – Que disse Oscar Romero sobre o trabalho da Cáritas durante a vida?

MONSENHOR GREGORIO – O tema aparece com frequência, sobretudo em seu Diario. Mas é bom recordar que o nascimento da Cáritas em El Salvador foi atípico: havia uma diretoria nacional, mas não existiam estruturas diocesanas e praticamente não tínhamos Cáritas paroquiais. Era como “um Estado-Maior sem soldados”. Por outro lado, a Cáritas, nessa época, estava voltada para o trabalho assistencial e, timidamente, atuava na promoção humana. Sendo arcebispo, coube a ele responder a uma grave acusação: o governo denunciou que, em caminhões da Cáritas, naqueles tempos de guerra, se levavam, mesclados aos feijões, projéteis para a guerrilha. O fundo do problema é que a Cáritas, ao levar alimentos às zonas de guerra, dificultava a estratégia dos militares: “Há que retirar a água aos peixes”. A “água” eram os alimentos. Podemos dizer que Monsenhor Romero tinha uma profunda estima pela Cáritas e decididamente apoiou seu trabalho.

CÁRITAS – Que recordações tem a população de El Salvador sobre Oscar Romero?

MONSENHOR GREGORIO – Há que distinguir dois momentos: antes e depois da beatificação. Antes, durante seus três anos de ministério como arcebispo, foi atacado e caluniado impiedosamente pelo governo e seu aparato de propaganda. Chegou-se inclusive, em alguma ocasião, a modificar seu nome com más intenções: o chamaram de Oscar “Marxnulfo” Romero (seu nome completo era Oscar Arnulfo Romero Galdámez). Era uma forma vulgar de acusá-lo de ser comunista e de atuar como instrumento do comunismo. Muitas pessoas simples se deixaram “intoxicar” por esta propaganda. A beatificação de Monsenhor abriu os olhos de muitos, inclusive de pessoas poderosas que fizeram festa no dia de sua morte porque “por fim mataram a este comunista”. Muita dessa gente tem pedido perdão em confissão e diante da tumba do venerado mártir. É o que eu chamo de um verdadeiro “terremoto espiritual”. O Papa Francisco tem desempenhado um papel crucial para que se conheça o verdadeiro Oscar Romero. E isso ficará ainda mais claro na terça-feira, 21 de março, quando o Santo Padre presidirá a eucaristia matinal na capela da Casa Santa Marta rodeado de todos os bispos de El Salvador, às vésperas do trigésimo sétimo aniversário do martírio de Monsenhor Romero.

CÁRITAS – Que eventos terá a Cáritas de El Salvador para o centenário de nascimento de Dom Oscar Romero, no próximo mês de agosto?

MONSENHOR GREGORIO – Talvez o mais impactante é que a Cáritas será anfitriã da reunião do Secretariado Latino-americano e do Caribe da Cáritas (Selacc). Ela também prestará serviço logístico a muitos dos visitantes que virão honrar a memória do Beato Romero, esperando que em breve ele seja canonizado. E, claro, mobilizará a muitos fiéis em todas as dioceses para que se unam a esta data inesquecível.

Por Luciano Gallas / Assessoria de Comunicação da Cáritas Brasileira
Entrevista concedida à Caritas Internationalis. Trdaução: Luciano Gallas
Foto: Cáritas El Salvador

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