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25 de novembro: Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher

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“Tu és toda formosa, querida minha, e em ti não há defeito.” (Ct 4,7)

Nós da Cáritas Brasileira nos inspiramos no mandamento maior de Deus que é o amor. Este amor que respeita o próximo, não julga, e zela por sua liberdade que anda de braços dados com a felicidade e cuida da vida. Somos guardiões da vida de uns dos outros e, principalmente, dos que mais precisam de nosso cuidado.

No dia 25 de novembro de 1960, as irmãs Patria, Minerva e Maria Teresa, conhecidas como “Las Mariposas”, foram brutalmente assassinadas pelo ditador Rafael Leônidas Trujillo, da República Dominicana. As três combatiam fortemente aquela ditadura e pagaram com a própria vida. Seus corpos foram encontrados no fundo de um precipício, estrangulados, com os ossos quebrados. As mortes repercutiram, causando grande comoção no país. No Brasil, há mais de 40 anos ecoam as vozes das mulheres dizendo “quem ama não mata, não humilha e não maltrata”. Dentro desse aspecto global, o Brasil está entre os países com maior índice de homicídios femininos e ocupa a quinta posição em um ranking de 83 nações.

A sociedade capitalista e patriarcal em que vivemos impõe uma estrutura de hierarquia social sobre o que é feminino e o que é masculino, e que são naturalizadas, o que leva as pessoas a não perceberem a violência e a desigualdade de gênero como um problema. Quer dizer, não é só a forma como a violência acontece, mas as desigualdades sociais que não são questionadas.

Além disso, a naturalização de outros tipos de violência psicológica estimula uma espiral de violências. O não reconhecimento da gravidade da violência contra as mulheres e de suas raízes discriminatórias concorre não só para que as agressões aconteçam, mas também auxiliam a manter a situação de violência até o extremo do assassinato. Age também como um obstáculo para que muitas mulheres não busquem ajuda para sair da situação de violência e, ainda, para que, quando busquem, não sejam devidamente acolhidas.

É necessário combater as causas da violência e uma delas é o machismo. Para isto precisamos estabelecer pactos nas relações sociais entre homens e mulheres que preservem a vida e que a violência machista seja considerada algo inaceitável por todas e todos.

O feminicídio não é um crime passional ou homicídio privilegiado, como a imprensa ou próprio sistema de justiça gostam de classificar. Essas denominações minimizam o feminicídio e contribuem para a perpetuação da violência contra a mulher e o assassinato.

Irmanados com muitas organizações e ativistas no mundo inteiro queremos, neste dia 25 de novembro, reafirmar o nosso compromisso e luta pela NÃO violência contra a mulher e pela VIDA. E esperamos que nossa Rede Cáritas se mova em cada canto do país em torno desta grande bandeira que é pelo fim do machismo e feminicídio.

Marilene Alves de Souza, Leninha
Diretora-Secretária
Pelo GT Mulheres da Cáritas Brasileira

O Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher não é uma causa apenas da população feminina ou daquelas que já tiveram suas vidas marcadas pelas diversas formas de violência. Essa é uma causa de caráter humanitário, como tal precisa estar na pauta de todas as pessoas.

A rede Cáritas, presente em 165 países, tem se empenhado em colocar em evidência as causas de mulheres, jovens e meninas na perspectiva da equidade de gênero, dando voz e espaço para a luta por dignidade e direitos.

Na entrevista, a diretora do Departamento de Incidência da Cáritas Internacional, Martina Liebsch fala sobre fatos recentes que dão impulso ao enfrentamento da violência conta as mulheres e sobre as perspectivas diante da maior abertura da sociedade para encarar essa feriada social de frente.

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Cáritas Brasileira (CB): Qual a importância do dia 25 de novembro na caminhada de luta das mulheres?

Martina: É importante lembrar sempre, novamente, que as violências contra as mulheres ainda existem, por mais que pensemos viver num mundo chamado civilizado. Fiquei muito emocionada pelo fato de que recentemente uma amiga denunciou o assédio sexual em altos níveis de negociação nas Nações Unidas. Ela foi muito corajosa em denunciar esses fatos!

Está diante de nós, e muitas vezes não vemos, ou não queremos ver, porque temos imagens da mídia que nos fazem acreditar que as mulheres estão capacitadas para se proteger. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) 1 em cada 3 mulheres (35%)  sofreram violência física ou sexual pelo próprio companheiro, ou violência sexual por outras pessoas em algum momento de suas vidas. As pessoas afetadas pelo tráfico são, em sua grande maioria, meninas e mulheres, e muitas vezes pessoas próximas às famílias e às comunidades são aquelas que iniciam o processo de tráfico, como confirmam as mulheres que são membras da União Mundial de Organizações de Mulheres Católicas (WUCWO).

CB: Qual e a leitura que a Cáritas Internacional faz sobre a violência contra a mulher?

Martina: Destacarei alguns pontos:

a) A violência contra a mulher é intolerável e, em todo trabalho que fazemos, devemos incorporar ou estar consciente desse risco.

 b) Devemos trabalhar com famílias, que muitas vezes pensam que é bom, como estratégia de sobrevivência, entregar suas filhas num casamento “organizado” ou nas mãos de traficantes que fazem falsas promessas.

c) Devemos proporcionar oportunidades para o desenvolvimento das mulheres e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nos fornecem várias diretrizes para promover, proteger e defender as mulheres da pobreza, violência e exploração.

d) É necessário capacitar as mulheres, mas também dar oportunidades reais e concretas para que possam criar uma vida de acordo com suas idéias e sonhos sem dependências.

e) É muito necessário trabalhar com homens e mulheres — para ter novos padrões de feminilidade e masculinidade — que não se baseiam no machismo e na carga excessiva de responsabilidades para as mulheres.

f) Devemos conscientizar as mulheres, que muitas vezes toleram práticas culturais, que vão contra os seus direitos.

CB: Que sinais de esperança são possíveis partilhar nesse dia?

Martina: Podemos valorizar o fato de que sempre há mais mulheres que novamente se lembram deste dia e desafiam homens e líderes em público. Para mim, o mais belo sinal de esperança é quando eu posso ver mulheres florescendo, mudando, sedo fortalecidas! Lembro-me de minha amiga na Nicarágua que, juntamente com uma comunidade, ganhou o prêmio Cáritas Interncaional “Semeadoras de Desenvolvimento”!

CB: Qual a sua mensagem para as mulheres nesse dia?

Martina: Não vamos parar de apoiar nossas irmãs na denuncia! Lembremos que há mulheres na Bíblia que se opuseram às “normas” e que elas podem nos inspirar (a samaritana, Judite…) e que há muitas mulheres na realidade de hoje que em suas “pequenas” lutas mudam atitudes. E encontremos maneiras de levar nossos irmãos conosco.

 

A nossa cor

Vermelho,

A cor do sangue,

A cor das regras,

A cor da reprodução,

A cor do batom que usaremos na revolução.

Sim!

A revolução usará batom vermelho,

A cor das regras de nossos corpos,

As nossas regras sobre os nossos corpos,

A nossa cor!!!

(Valquíria Smith)

Devoção

Pois que é nas mulheres que deposito minha fé,

E a elas rezo para merecer essa irmandade,

À mais anonima e à que todas o nome conhecem

Às que habitam esferas passadas

E as que ao meu lado caminham.

À elas eu rezo para merecer essa irmandade,

Pois que é nas mulheres que eu deposito a minha fé.

Às mulheres que teceram, no anonimato ou na infâmia,

Os espaços que ocupo, eu oriento as minhas orações:

Que eu possa ser filha, mãe e irmã de todas que encontrar,

Pois que é nas mulheres que deposito minha fé.

Nos ventres redondos, seios fartos,

Braços musculosos ou pernas fortes

Ou nos corpos frágeis recendendo suavidade,

– não importa –

Pois que é nas mulheres que deposito minha fé.

E elas ensinam e me ensinaram:

A nunca recriminar uma mulher livre,

– Nunca mais –

A nunca me reduzir em feminilidades,

– Nunca mais –

A nunca acreditar nas mentiras dos que definem,

A nunca calar diante do desamor.

Pois que é nas mulheres que eu deposito minha fé

E serão elas a me guiar nas trilhas incertas que abrimos juntas.

E que possa perpetuar a dívida eterna

Doando o que recebi a outras mulheres,

Nas quais deposito a minha fé.

As que nasceram e as que se tornaram,

As por dentro, as por fora

E as mil possibilidades da textura.

E que possamos combater

Intrincadas formas de opressão,

As que vivo e as que não.

Que contra todas eu possa lutar,

Pois que é nas mulheres que deposito a minha fé.

Que sejam elas a me dizer como ser mulher;

Ainda que desafie a compreensão,

Que estralhace seguranças mofadas,

Que me mostrem asperezas que não quero ver,

Pois são elas que entendem a necessidade do abraço

E são elas que determinam os meus passos.

Pois que é nas mulheres que deposito a minha fé.

(Laura Moreira)

mulheres

Senhor, nós te pedimos, proteja as mulheres em todo o mundo, meninas, adolescentes, jovens, adultas e idosas.

Dá-lhes a coragem de se indignar, de não se esconder atrás da indiferença, mas sempre e em todas as circunstâncias agir em sua própria defesa e em defesa das demais mulheres que sofrem todas as formas de opressão, humilhação e abusos a que são forçadas.

Senhor, nós te pedimos, que o bem seja promovido em todos os lugares, curando as feridas de cada mulher. Não permita que o mal e a violência continuem a serem alimentados. Ajuda-nos a romper as cadeias do mal com a energia do nosso amor.

Inspira novas leis e novas políticas em defesa e garantia dos direitos e da dignidade das mulheres em todo o mundo. Que toda a humanidade seja renovada por um novo sentimento de amor, coragem e respeito.

Senhor, tudo isso pedimos a ti, que és Amor, por intercessão de Maria de Nazaré, Clara de Assis, Tereza de Calcutá e Bakhita: mulheres de luta, coragem e esperança.

Que a nossa oração e o nosso compromisso possam romper as amarras da violência e espalhar por todos os lugares, sementes de cura e de revitalização para todas as mulheres!

Amém!

Oração inspirada na publicação do site das Irmãs Franciscanas dos Pobres

 

O 25 de novembro foi declarado como Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher a partir do Primeiro Encontro Feminista da América Latina e Caribe realizado na cidade de Bogotá em 1981, como justa homenagem a “Las Mariposas”, codinome utilizado em atividades clandestinas pelas irmãs Mirabal, heroínas da República Dominicana brutalmente assassinadas em 25 de novembro de 1960.

 Minerva, Pátria e Maria Tereza ousaram declarar oposição à ditadura de Rafael Leônidas Trujillo, uma das mais violentas da América Latina. Por essa corajosa atitude foram perseguidas e por fim presas junto com seus respectivos maridos. A prissão neste caso nada mais foi que uma estratégia para que se realizasse o plano de assassiná-las.

No entanto a prisão provocou grande comoção popular e o ditador acabou por libertá-las, para em seguida simular um acidente automobilístico matando-as enquanto estavam a caminho da prisão para visitar seus maridos no cárcere. Seus corpos foram encontrados no fundo de um precipício estranguladas e com muitos ossos quebrados.

As irmãs Mirabal: Patria Mercedes Mirabal, Minerva Argentina Mirabal e Antonia Maria Teresa Mirabal

As irmãs Mirabal: Patria Mercedes Mirabal, Minerva Argentina Mirabal e Antonia Maria Teresa Mirabal

A notícia do assassinato escandalizou e comoveu a Nação. Suas ideias, porém, não morreram. Seis meses mais tarde, em 30 de maio de 1961, Trujillo foi assassinado, e com sua morte chega também ao fim a ditadura na República Dominicana.

Este fato possibilitou o processo de libertação do povo dominicano e da busca por respeito aos direitos humanos, como quiseram Patria, Minerva e Maria Tereza, cuja memória converteu-se em símbolo de dignidade, transcendendo os limites da República Dominicana para a América Latina e o mundo.

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Ao longo desses 36 anos em que os mais diversos grupos e países se mobilizam para o enfrentamento da violência contra as mulheres motivando iniciativas no Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, muitas ações ganharam força e visibilidade. Entre as principais delas está o ativismo da Organização das Nações Unidas por meio da ONU Mulheres.

Neste ano, a mobilização adotou o lema “Não deixar ninguém para trás: acabar com a violência contra as mulheres e meninas” em referência aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. “A essência do tema de hoje “Não deixar ninguém para trás” é que ninguém deve ser deixada de fora. Isso significa ter mulheres e meninas em pé de igualdade e incluí-las em todos os assuntos que as preocupam e projetar soluções para acabar com a violência junto com aquelas pessoas anteriormente omitidas, relegadas ou marginalizadas. Como comunidade global, podemos acabar com a violência contra mulheres e meninas, transformar instituições e unir os esforços para erradicar a discriminação, restaurar os direitos humanos e a dignidade e não deixar ninguém para trás”, afirma Phumzile Mlambo-Ngcuka, secretária-adjunta da ONU e diretora executiva da ONU Mulheres.

Uma das ações públicas é a iluminação laranja em espaços de grande visibilidade como os cartões postais de diversas cidades pelo mundo. No Brasil o Cristo Redentor (RJ), o Elevador Lacerda (BA) e o Palácio Buriti (DF) participam dessa ação. No mundo, estão programadas as iluminações do Fortune Financial Centre, em Pequim (China); dos parlamentos de Bangladesh, Libéria e Marrocos; do Palácio de Belas Artes, na Cidade do México (México); dos monumentos de Gaziantep (Turquia); da prefeitura de Bogotá; do Teatro Nacional de Argel e da Montanha da Mesa, na Cidade do Cabo (África do Sul).

Pelo quarto ano consecutivo, a iluminação deixa as marcas em diferentes pontos do mundo em favor dos direitos de mulheres e meninas viverem sem volência. Em 2016, 105 países participaram da ação, coordenada pela ONU Mulheres no âmbito da campanha do Secretário-Geral da ONU UNA-SE pelo fim da violência contra as mulheres.

Em 2016 a Cáritas Brasileira estabeleceu um Grupo de Trabalho que se destina ao acompanhamento das temáticas que dizem respeito às mulheres. “A Caritas Brasileira em todas as suas áreas de atuação, busca animar a participação das mulheres entendendo a importância do seu protagonismo enquanto instrumento também de enfrentamento à violência!, disse o diretor executivo da Cáritas Brasileira, Luiz Cláudio Lopes da Silva (Mandela). Para mobilizar este Dia Internacional pela Eliminação da Violência Conta as Mulheres o grupo divulgou a declaração que integra esta publicação e a partir deste sábado, 25, a Cáritas Brasileira inicia uma ação de ativismo nas redes sociais com publicações que chamam atenção para o escândalo do feminicídio no Brasil que atinge números alarmantes.

 

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